Coragem de Anita Garibaldi

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Coragem é está que me liberta da cama, que me tira do encontro do mesmo, que me coloca ao dia com o pé apressado, coragem é está que traz de volta onde já passei. A pressa dos meus passos largos, não é a pressa do tempo, do compromisso atrasado. Está pressa, sou eu fugindo, correndo de tudo o que já estabeleci. Está pressa sou eu deixando rastro. 

Quero mesmo é passar despercebida por tudo isto. Como uma música dentro de outra, que quando está sendo percebida, já se foi. Aquela saudade que não sabemos o porquê. É isto que eu sou, e todo dia, estou lá, caminhando por todo esse canto, me sobra sim à força deste nome.

A coragem tem seu efeito, mas coragem Anita Garibaldi, é coragem por inteiro, coragem-revolução. E coragem que te tira do conforto. O que estás a sentir? Não sente nada, porque é tolo, medroso e sobretudo, covarde. Lança-te sem medo, coragem de Anita Garibaldi, não arreda pé atrás. Coragem assim, fura os olhos, é amor febril. 

Vá sem medo. Para um novo lugar posto,  situação,  história. Vá sem medo para isto que o destino almeja. Saia desta cadeira confortável, desta posição que a sociedade tanto espera. A coragem está subindo todos os dias a escadaria da estação do metrô Sé. Já descobriu como sufocar a própria gravidade, porque a subida, sim, a torna ofegante. 

Mas subida é a percepção de quem está olhando.

Coragem não se canse, levanta-me o pé. Coloca-me onde nunca fui antes. Ponha-me a risco. Deixei que a vergonha que me basta, seja meu próprio ato falho. 

Não quero ser lembrança, nem memória, nem por efeito, a dor de ninguém. 

Coragem não me esconda aos olhos tudo o que ignoro ver. 

Anita conheço este teu olhar, o salgo de tua voz, seu caminhar fundo.

Peço, não fuja! A velocidade da vida me corrompe, estou todo dia a passar por ali e levar um pouco desta história. Estou todo dia a deixar que minha sombra faça efeito sobre o ladrilho desgastado da cidade. 

A cidade corresponde a minha aspereza. Mas por que, eu, ainda acredito em olhares?

O que o mundo me disfarça, o que está escondido por debaixo desta calçada de concreto, e as paredes certas de um apartamento que rasga o céu. 

O que tem neste caminhar calmo? Na grama que não desiste a nascer. E o serviço de limpeza da prefeitura, arranca, e a empregada, limpa. E o cachorro, urina. Mas não, insiste! A vida se faz por irônica a nascer nos lugares mais inóspitos.

Todo este silêncio devagar se torna uma sintonia. Devagar, consigo ouvir o que o tempo todo, o silêncio vem me dizendo. Estamos sós, Anita!

Mas que o teu olhar, tua garra! Ponha-me coragem seu destino linhas da própria história. Cá estou eu, pondo-me a acreditar na significância das placas, nas forças das paredes arquitetadas em projetos antigos, nas escadarias, nos compradores de ouro, nos fones de ouvido, nas travessias, curvas, semáforos. Cá estou eu, por caminhar, de novo, por pressa, que canso. 

Canso de desviar o olhar, de me tornar aquém a este trajeto. Cá estou eu, me pondo de novo a acreditar. Coragem deverás por existir na mão suja de quem estende por dinheiro, na calçada da Catedral da Sé. E aquele emaranhando de mantas, acumulando poeira, o sol e a terra, desta vida, coragem, pôs-te em cima do muro. Embaixo do teto, sentado na calçada. Coragem, deixo-te a certeza. Não há solidão maior que uma rua vazia, e tua família, e tua vida, que já te foi embora.

Agora você aqui, envolto a manta, sob o teto do céu, a lua crescente e o vento de uma cidade que não para. A calçada é gelada, mas você já está por demais acostumado, a rua é grande e vazia, mas o silêncio nunca foi o que incomodou. Este vazio, é o mesmo do universitário apressado para concluir o ensino superior, da dona que perdeu o filho e caminha a ver as árvores, e percebe neste movimento todo o banal da vida. 

Anita, coragem, Garibaldi! Pois enquanto caminho, desvio, toda a tendência do meu caminhar. Pois enquanto coragem, me levanta. Disfarço este olhar triste. 

Mas Anita, o que o mundo tem a me dizer? Por que a fragilidade de uma criança no carinho de bebê, com cilindro de oxigênio. Me dói tanto? Pode isto ser justo? A privação de respirar. Ponho-me a bater estas colunas tão duras, a vida me dá um golpe em cada canto que vou. 

É a moradora de rua que briga com a caixa de papelão no efeito de se cobrir, é o sarro da risada alheia. A deformação que incomoda a estética humana. A desgraçada toda, e ao caminhar, este tanto de energia que destrói o olhar de um sonhador. Que revolta a alma humana ao ver tantos contrastes. É o que nós somos, Anita, pobres! “Bendita pobreza, que me liberta!”.

E poderia, passar por você despercebida, mas isto está trincado na minha essência como ser, pois é! Desta marginalidade que acompanho desde pequena, a periferia se formando, o acesso, o tráfego urbano, a pressa do ontem, a desgraça toda. A desgraça por parte de mim, ponha-me coragem a caminhar! E tropeço, ao ver, de novo, conjunto de crianças, roupas sujas, sua casa (um carro de mão) lotado de reciclado, por efeito algum brinquedo, cachorro também. E o shopping com maçanetas banhadas de ouro, madeira maciça. 

Estas crianças entram nesse lugar. Coragem me dê calma! Não consigo mais disfarçar ser coerente, quando não há coerência que explique tudo o que vi nesse simples caminhar. E se no lugar de cada cachorro de raça, existisse uma criança de rua. Porra, coragem, não coloque dinamites na minha mão. 

Estou a ler que na periferia que há de nascer à revolução. Anita, traça-te o teu nome, nesses caminhos curvos. A obscuridade é mesmo abaixar a cabeça a quem te pede ajuda. Mas olha, não é por mal, que isto torna a existir, mas estamos ludibriados a seguir tendências. 

E em quem vamos confiar? A quem vamos estender a mão, como a pintura de o Filho Pródigo.  Coragem, ponha-te no meu lugar, e depois não me fales que estou a fazer loucura. Não me arrede, quando eu já estiver a saltar esta ponte, nada me salva agora.

Esta tarde demais, para me vir com argumentos de que a humanidade basta.

Coragem coloca-te em meu lugar, e cala-te, em silêncio.

Não há igualdade nesta vida que justifique nossa superficialidade.

Não há caminhada que valha sem não houver a quem podemos estender a mão.

Não há caminhada que valha, se por sinal, estivermos sós.

Coragem, ponha-te em meu lugar, e morra, mas não me falhe quando for a hora.

3 comentários sobre “Coragem de Anita Garibaldi

  1. “Aquela saudade que não sabemos o porquê.”
    .
    Do que o Eu lírico sente saudades ?
    Qual objetivo desse eu lírico ?
    Porque precisa de tanta coragem ?
    .
    “a vida me dá um golpe em cada canto que vou. ”
    .
    O Eu lírico é vítima da vida, a vida ? Por quê a vida do Eu lírico é tão difícil ?
    .
    “e depois não me fales que estou a fazer loucura”
    Qual foi a maior loucura desse Eu lírico ?
    .
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    “Coragem, ponha-te em meu lugar, e morra, mas não me falhe quando for a hora.”
    O Eu lírico é medroso e precisa de coragem, tem medo de que falhe ?
    .
    .
    .
    Me responde as perguntas se tiver coragem, disposição, paciência, carisma, etc, flw…

  2. Eu quero fazer uns pedidos para você postar no blog, mas não sei se você tem coragem de atender os pedidos do fã N 1 do blog…

  3. Tiras umas fotos, faz uns ensasios, conta umas histórias/estórias que a personagem principal se chame “Simone”, flw.

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