dúvidas.

Eu não vejo outra saída essa noite. Desde quando levantei desse lugar, as pessoas me encararam como um estranho qualquer, como mais um, com os brilhos nos olhos, construindo detalhes para um mundo que não existe em nossa frente.

Não existem expressões da alma no mundo. Não existe alma. Não me lembro de qual foi a última vez que ouvi uma música chegar até aqui, nem me lembro mais os traços dos desenhos que eu costumava fazer.

Meus pensamentos, eles que continuam, vagando dentro de algo que ainda sobrou, será que posso chamar de minha individualidade inalterada? Perdi todos os meus parentes, todos se foram, junto com a lembrança de quem um dia eu cheguei a ser.

Minha profissão, meu conhecimento de mundo, não valem nada nesse lugar. É como se eu estivesse preso dentro de qualquer ideia mal acabada, de um sonho sem fim, de uma escuridão de pessoas sem vida, pessoas condicionadas a aceitarem aqui como o único lugar que elas deveriam estar.

Eu vejo, às vezes, mas pode ser uma ilusão, eu vejo a sombra das luzes, quando faz dia lá fora. Mas isso pode ser um conforto da minha mente, tentando recuperar, o que um dia o mundo foi para mim.

Eu consigo construir alguns momentos que eu poderia ter esquecido, mas por que eu aguardei? Acho que esses momentos só existem, porque ainda me restam algumas dúvidas. Será a dúvida a eternidade de nossas lembranças?

Acho que não. Mas por que diabos essas pessoas não saem daqui? Por que elas não buscam outro lugar como eu? Por que elas não percebem que há um mundo lá fora? Eu estou sozinho.

As paredes desse lugar estão todas com marcas de dedos, talvez elas tivessem tentado, talvez elas tivessem tentado como eu, mas não chegaram a lugar nenhum, e desistiram. Esses cadáveres humanos, talvez, sejam mais maduros do que eu.

Mas droga! Não consigo aceitar. Não consigo ficar mais tempo aqui, eu preciso de uma saída. Esse não sou eu. Para quem eu devo gritar quando não existe ninguém, ninguém, que vai conseguir me ouvir aqui?

Fé? Por favor, não me venha com essa agora. Por que meu lado racional não sustenta a fraqueza de que não existe nada além de mim e minha mente? Por que eu devo recorrer a uma fé? A fé me trouxe aqui. Nesse lugar escuro. Nesse túnel sem saída. Nesses humanos mortos.

Eu me mantive cego por muitos anos, mantive uma vida normal, trabalhei, casei, tive filhos, e agora todos eles estão mortos. Mortos pela minha fé, pela minha cegueira, como pude deixar a vida na mão de algo que eu tinha fé?

Como fui fraco o suficiente para não encarar que não existe nada além, da morte, isso não é pessimismo, agora eu sei.

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