Fragmentos do cotidiano.

Multidões, carregando pastas executivas, esgueirando-se com incrível celeridade para dentro e para fora, passavam como um rio numa enchente. Passavam bramindo como um trem num túnel. Percebendo minha oportunidade, atravessei; mergulhei numa escura passagem e entrei na barbearia e cortei o meu cabelo. Recostei a minha cabeça para trás e embrulhavam-me num lençol. Espelhos me encaravam, e neles pude ver meu corpo manietado, e gente passando; parando, olhando, seguindo indiferente. O cabeleireiro começou a mover sua tesoura. Sentia-me impotente para interromper as oscilações do aço frio. Assim somos cortados, e enfileirados, disse eu; assim jazemos lado a lado em campos úmidos, ramos ressequidos ou florescentes. Não mais precisaremos expor-nos ao vento e à neve em sebes nuas, não mais precisaremos manter-nos eretos quando a tempestade sopra, nem sustentar erguidos nossas cargas, nem persistir, imúrmures, naqueles dias pálidos em que o pássaro se agacha no ramo e a umidade branqueia a folha. Somos cortados, tombamos. Tornamo-nos parte deste universo insensível que dorme quando somos mais rápidos, e arde vermelho quando dormimos. Renunciamos à nossa estação e agora jazemos achatados, mirrados, tão depressa e esquecidos! Depois, vi uma expressão de canto do olho do cabeleireiro, como se algo na rua o interessasse.

As Ondas, Virginia Woolf.

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