Voyeur.

Desejos. Sim, como a segunda fase de meu cineasta favorito, sou mergulhada nessa faceta humana de seguir o que os anseios controlam. Observadores com paciência. Janelas abertas, beirando cortinas, detalhes floridos, cada espaço se torna grande quando estamos sozinhos. O cômodo de um quarto vazio é grande o suficiente para sustentar o ego de nossos corpos frágeis.

A paciência do olhar, da espera negada pela presença imediata. Reflexos turvos em janelas quadradas, vitrô veneziano, semi cerrados, outras abertas acima do limite de privacidade. Olhares trançados por sombras, a sombra do caminhar lento ao quarto, a sombra de quem segura um livro antes de dormir.

A iluminação amarela, rasteira, é a única iluminação no quarto. Binóculos em formatos geométricos, nariz curvado, sensação de perseguição. Todos fotógrafos de momentos que preferíamos esquecer. Químicas mal elaboradas, geográficas sentimentais, distância segura de quem não quer se ferir.

Desejos, palavras surgidas em roteiros de Almodóvar. Varal com roupas coloridas, boleros antigos, gritantes, sofridos, dores de amores não vividos, amores mortos no inicio. Amores mortos. Como pétalas caídas no começo de primavera. Toda ruptura deixa a sua dor. A dor sustenta uma força, que poderia ser qualquer sentimento, qualquer amor, o amor de qualquer um.

Vermelho, sangue rojo.  Olhar maquiagem. Corpos trêmulos. Toques intensos, frequência de um ataque cardíaco.  O coração que se vá, ah o amor.  A jovem escritora sem sentido, sentada em sua mesa grande, sua letra feia, seus erros de português, sua imaginação fluída, as cores marrom de seu quarto.

Batom. Lábios formados por palavras tão corretas. Cerrados. Um beijo, a entrega. Beijos além dos lábios encostados. Beijos que selam o início do desejo. Flores, girassol, tulipas, vinhedos, pinheiros, rosas claras. Perfumes misturados, abraços, lençol bagunçado, colchão, um pedaço da janela aberta.

E da vitrola, surgindo o desencanto da canção “amor yo sé que quieres llevarte mi ilusión. Amor yo sé que puedes tambien llevarte mi alma pero ay amor si te llevas mi alma llevate de mim tambien el dolor. lleva en ti todo mi desconsuelo y tambien mi cancion de sufrir. Ay amor si me dejas La vida dejame tambien el alma de sentir.”

Outro quarto. 15 metros, um andar a cima, olhar castanho iluminado na escuridão, voyeur detalhando sua pintura diária, sua televisão semanal, a vida de quem há noutra janela. cortina quadriculada, quarto bagunçado, livros abertos, alguns na página 53, outros beirando a 85. Cama bagunçada, cores apagadas na escuridão. A música do quarto a frente invadindo a janela “lleva en ti todo mi desconsuelo” o refrão dança no quarto vazio, desespero, querendo sair, assim como voyeur.

Solitário, livros, letras deformadas por emoções fortes. Nomes misturados. Fotografias em negativos. Fotografias em mural. Porta retrato com fotografias. Um homem em seu quarto, seu quarto com maçaneta, com binóculos, com teleobjetivas, com cortinas quase fechadas. Histórias contadas em becos, Espanha.

Flores caídas no chão. Vasos secos. Vidros quebrados. Batons, contornos em rostos como pinturas cubistas de Picasso. Rostos deformados. Cama incendiada. Desejo, rojo voyeur, amor yo sé que quieres levarte mi ilusión. Queima mi pasión. A noite as janelas ficaram fechadas, a música foi dançando nos becos estreitos, passou pelo casal que transava na esquina, pelo bêbado que cantava canciones de amor. Pelas gotas de águas que pingavam e faziam ondas, as ondas iluminadas sobre a noite e o sereno de uma rua quase vazia encerrada pelo verso … si me dejas La vida dejame tambien el alma de sentir.

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