Parte 24

 

Você se lembra quando éramos acostumadas a acreditar em contos de fadas? E que a única verdade era a nossa imaginação? Nossos desejos pequenos e sutis bastavam.

Lembra quando deu o primeiro passo para fora de casa? Nossa mãe, preocupada dizendo não demora. Lembra das conversas a noite sobre coisa qualquer, fazendo teatro das sombras, rindo de pessoas burras e engraçadas que apareceram convincentemente por aqui? Lembra das nossas primeiras reclamações? Das minhas queixas e chatices para cima de você, melhor, das minhas primeiras reclamações. E das nossas brigas intensas e dolorosas ao mesmo tempo inúteis e imbecis, que sempre acabavam com uma das duas, senão as duas, rindo de algo engraçado durante a briga. Lembra das suas perguntas para mim? E das minhas respostas para você? Das nossas conversas durante a madrugada, com olhos fechados você imaginava um mundo antes de surgir. Eu imaginava como você seria, para eu deixar de ser tão só, como era antes de você nascer. Eu imaginava, eu ensinando as coisas para você.

Eu tinha medo de você ser chata e roubar o meu lugar, eu descobri que você é de uma chatice saudável que eu suporto. E que ninguém roubou lugar de ninguém, só emprestamos a cadeira uma para a outra e você sentou no meu colo para ouvir histórias criadas na hora, só para você dormir. Eu brincava de ser mãe quando pegava você no colo. Você era muito estranha, pequena e loira, muito diferente de mim. Pensava que você era uma filha adotiva qualquer. Eu lembro também, quando eu derrubei você pela primeira vez no chão, nossa mãe gritou e o nosso pai deu uma bronca alta e grossa, fiquei chateada e com medo de pegar você no colo novamente.

Lembro da suas dúvidas. Lembro das suas perguntas sobre o mistério da vida. Lembro dos seus medos imbecis e engraçados. Lembro de seu rosto enquanto dorme, vai por mim, é o mesmo há 15 anos. O que mudou, é que agora você não é mais um bebê. E que as coisas de gente grande, você vai ver, são fracas e sem emoções. Mas como sua irmã, sempre vou querer te mostrar o melhor, mesmo que o melhor não seja o melhor. Mas o melhor é ver você feliz ou triste, sabendo que você tem a mim para não sentir medo e para a gente envelhecer uma do lado da outra, mantendo e multiplicando essa família que somos nós.

3 comentários sobre “Parte 24

  1. Me sinto grata por ter sua ajuda tão importante e essencial para minha vida e por você sempre demonstrar um grande carinho e afeto por mim , sendo este correspondido. Ás vezes fico refletindo se eu sou a irmã que você gostaria de ter, porém tenho certeza que sou, apesar de brigamos constatemente por coisas imbecis, mas isso não importar, são só desacordos normais de todo ser humano. Sempre contarei com você, espero que você faça o mesmo.
    Obrigada pela homenagem!

    PS: Viu como estou lendo o seu blog..

  2. “E que ninguém roubou lugar de ninguém, só emprestamos a cadeira uma para a outra e você sentou no meu colo para ouvir histórias criadas na hora, só para você dormir”
    É destino, novamente escorro meus outros olhos em que fui despertada por breves empurrões de suas mãos. Nessas palavras sinceras expressadas em que caminhamos juntas, nos dois sorrisos. E me diga qual a graça de viver sem brigar, faz parte desse peça, para assim fazermos a pazes em silencio em cada canto, e continuamos sentada lado à lado na cadeira da esperança.
    A infância passageira, flutuados nas sombras. As lembranças que são guardadas com selo de saudade, na caixa da memória. O passado passageiro marcado, que algum lugar ainda está vivo.O presente que permanece em sua companhia, e o futuro planejado mesmo sabendo de sua inexistência. Não importa, sempre você esteve lá, mesmo quando seu corpo não estava, sentia sua presença ao meu lado.
    Nos passos lentos caminhando no mundo criado por alguém, e também criado em nossa imaginação. Sentir sua vida pulsar nessas palavras, e um pedaço meu fica perdido e preso dentro delas, escondidos navegando nesse mar misterioso. Em cada lida mostra algo diferente, como se estivesse escondidos e esperando um momento para brilharem e aparecerem, e serem ingeridas como um perfume suave . Nesse espelho que vejo você refletido com seu jeito diferente de se lidar com os passos, mas que faz parte da sua vida. Minha vida. A nossa vida. À procura daquilo que falta para voarmos e sermos livres de verdade.

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