ao vivo no Village Vanguard

Village Vanguard NYC-2

Chapéu preto tampando minha visão é… Miles Davis, fumando charuto, mexendo a perna. Ele estava olhando para a curva de outras duas mulheres à frente, meu sapato brilhando com o reflexo da luz rasteira do Village Vanguard . Aquele cheiro forte de alma queimada. Balcão molhado de cerveja escorrida. O tumulto de uma coisa só seguindo a direção do palco. Eles querem ver a performance dele, parece que foi ontem. Meus olhos estavam sangrando, curiosidade, foi quando eu percebi que já havia tomado 4 copos de whisky, nessa época o ácido era a droga do momento, esse termo também era da época. Embora eu aparentasse ter uns 22 anos, eu tinha pelo menos 4 anos a mais, meu terno, minha gravata verde, sapato polido, barba feita, sobrancelha passando seriedade. Esse sou eu, nos meus vinte e seis anos, por enquanto ainda não tinha uma mínima noção do efeito que causaria essa noite na minha vida.

Mas tudo parecia incrivelmente carregado pela mesma atmosfera. Eles estavam conversando sobre algo que eu não dava a mínima importância, algo sobre a dissonância das notas no Jazz. Eu vou ser sincero, comecei a apreciar o jazz, muito tempo mais tarde, em momentos que estava completamente fora de mim, a nossa geração tinha algo de não querer estar, o estar presente era insuportável.

Miles Davis sobe no palco. E começa a queimar todo mundo. Você não consegue mais vê aquelas boas moças vestidas, prontas para a festa, você sente que todo mundo é um refluxo do dia seguinte, quando a ressaca vier forte e a dor de cabeça lembrar que você nunca irá se destacar num incêndio.

Abra a janela. Porque é assim a melhor maneira de cometer um crime sendo você mesmo. Começaram a subir, o tom, aquilo me lembrava dum sonho, um daqueles sonhos que acabam sem sentido e começam e cima de outro já pela metade. Era essa dissonância que talvez o jazz trouxesse. Essa falta de controle, essa coisa de deixar os fragmentos sobrepostos, juntos, figurados num turbilhão para invadirem sua necessidade de explodir.

Eu sinto que estou meio out de todo o meu corpo. É deixar a mente expandir para um lugar sujo, um porão de pessoas loucas, cheias de dúvidas e desejos, pessoas intensas que deixaram suas razões para trás e começaram a injetar a imortalidade em suas veias.

Eu estava quase transparente, quando sinto, alguém encostando-se a meu braço, levo um choque intenso, como o de um som de uma guitarra berrando sobre o som estridente do silêncio noturno.

Era uma mulher, cabelo com gelo, penteado todo para trás, olhos fixos para quem? Para Miles Davis. O cara era a sensação do momento e o Village ressurgia com as piores almas do século passado.

Éramos os melhores errantes, estávamos escrevendo essa história e não tínhamos a mínima ideia de onde aquilo ia dar. Peguei outro copo. Comecei a pensar nos motivos que me levaram a estar naquele lugar, naquela noite. Sair do meu quarto, aquele ambiente depressivo, cheio de quadros sem pintura, cheio de discos empoeirados e garrafas com bebidas beirando seu fim. Esse ar de esgotamento, eu carregada desde os 18 anos.

Como se toda a minha juventude tivesse me preparando para estar naquele lugar, naquele momento, vendo Davis incorporando qualquer entidade superior, a cada gole, me via um pensamento duvidoso sobre a vida. Algo como caos, uma teoria do universo mal estabelecida, cheia de buracos negros.

Vinha a mim, outras dúvidas em relação à vida, aquelas coisas, do porquê de eu estar empregado em uma empresa com boa reputação e o que eu ganhava com isso, em todos os meus dias, nada me escapava a não ser a minha teimosia de me anular.

E o jazz era isso. Esse retalho do improviso, essa ânsia pela potência, essa superação do fracasso social. Era o Jazz o mais fiel manifesto do homem e isso parecia ser o suficiente na época, e a nossa alma ansiava por um som que exprimisse o nosso verdadeiro caos.

Coragem de Anita Garibaldi

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Coragem é está que me liberta da cama, que me tira do encontro do mesmo, que me coloca ao dia com o pé apressado, coragem é está que traz de volta onde já passei. A pressa dos meus passos largos, não é a pressa do tempo, do compromisso atrasado. Está pressa, sou eu fugindo, correndo de tudo o que já estabeleci. Está pressa sou eu deixando rastro. 

Quero mesmo é passar despercebida por tudo isto. Como uma música dentro de outra, que quando está sendo percebida, já se foi. Aquela saudade que não sabemos o porquê. É isto que eu sou, e todo dia, estou lá, caminhando por todo esse canto, me sobra sim à força deste nome.

A coragem tem seu efeito, mas coragem Anita Garibaldi, é coragem por inteiro, coragem-revolução. E coragem que te tira do conforto. O que estás a sentir? Não sente nada, porque é tolo, medroso e sobretudo, covarde. Lança-te sem medo, coragem de Anita Garibaldi, não arreda pé atrás. Coragem assim, fura os olhos, é amor febril. 

Vá sem medo. Para um novo lugar posto,  situação,  história. Vá sem medo para isto que o destino almeja. Saia desta cadeira confortável, desta posição que a sociedade tanto espera. A coragem está subindo todos os dias a escadaria da estação do metrô Sé. Já descobriu como sufocar a própria gravidade, porque a subida, sim, a torna ofegante. 

Mas subida é a percepção de quem está olhando.

Coragem não se canse, levanta-me o pé. Coloca-me onde nunca fui antes. Ponha-me a risco. Deixei que a vergonha que me basta, seja meu próprio ato falho. 

Não quero ser lembrança, nem memória, nem por efeito, a dor de ninguém. 

Coragem não me esconda aos olhos tudo o que ignoro ver. 

Anita conheço este teu olhar, o salgo de tua voz, seu caminhar fundo.

Peço, não fuja! A velocidade da vida me corrompe, estou todo dia a passar por ali e levar um pouco desta história. Estou todo dia a deixar que minha sombra faça efeito sobre o ladrilho desgastado da cidade. 

A cidade corresponde a minha aspereza. Mas por que, eu, ainda acredito em olhares?

O que o mundo me disfarça, o que está escondido por debaixo desta calçada de concreto, e as paredes certas de um apartamento que rasga o céu. 

O que tem neste caminhar calmo? Na grama que não desiste a nascer. E o serviço de limpeza da prefeitura, arranca, e a empregada, limpa. E o cachorro, urina. Mas não, insiste! A vida se faz por irônica a nascer nos lugares mais inóspitos.

Todo este silêncio devagar se torna uma sintonia. Devagar, consigo ouvir o que o tempo todo, o silêncio vem me dizendo. Estamos sós, Anita!

Mas que o teu olhar, tua garra! Ponha-me coragem seu destino linhas da própria história. Cá estou eu, pondo-me a acreditar na significância das placas, nas forças das paredes arquitetadas em projetos antigos, nas escadarias, nos compradores de ouro, nos fones de ouvido, nas travessias, curvas, semáforos. Cá estou eu, por caminhar, de novo, por pressa, que canso. 

Canso de desviar o olhar, de me tornar aquém a este trajeto. Cá estou eu, me pondo de novo a acreditar. Coragem deverás por existir na mão suja de quem estende por dinheiro, na calçada da Catedral da Sé. E aquele emaranhando de mantas, acumulando poeira, o sol e a terra, desta vida, coragem, pôs-te em cima do muro. Embaixo do teto, sentado na calçada. Coragem, deixo-te a certeza. Não há solidão maior que uma rua vazia, e tua família, e tua vida, que já te foi embora.

Agora você aqui, envolto a manta, sob o teto do céu, a lua crescente e o vento de uma cidade que não para. A calçada é gelada, mas você já está por demais acostumado, a rua é grande e vazia, mas o silêncio nunca foi o que incomodou. Este vazio, é o mesmo do universitário apressado para concluir o ensino superior, da dona que perdeu o filho e caminha a ver as árvores, e percebe neste movimento todo o banal da vida. 

Anita, coragem, Garibaldi! Pois enquanto caminho, desvio, toda a tendência do meu caminhar. Pois enquanto coragem, me levanta. Disfarço este olhar triste. 

Mas Anita, o que o mundo tem a me dizer? Por que a fragilidade de uma criança no carinho de bebê, com cilindro de oxigênio. Me dói tanto? Pode isto ser justo? A privação de respirar. Ponho-me a bater estas colunas tão duras, a vida me dá um golpe em cada canto que vou. 

É a moradora de rua que briga com a caixa de papelão no efeito de se cobrir, é o sarro da risada alheia. A deformação que incomoda a estética humana. A desgraçada toda, e ao caminhar, este tanto de energia que destrói o olhar de um sonhador. Que revolta a alma humana ao ver tantos contrastes. É o que nós somos, Anita, pobres! “Bendita pobreza, que me liberta!”.

E poderia, passar por você despercebida, mas isto está trincado na minha essência como ser, pois é! Desta marginalidade que acompanho desde pequena, a periferia se formando, o acesso, o tráfego urbano, a pressa do ontem, a desgraça toda. A desgraça por parte de mim, ponha-me coragem a caminhar! E tropeço, ao ver, de novo, conjunto de crianças, roupas sujas, sua casa (um carro de mão) lotado de reciclado, por efeito algum brinquedo, cachorro também. E o shopping com maçanetas banhadas de ouro, madeira maciça. 

Estas crianças entram nesse lugar. Coragem me dê calma! Não consigo mais disfarçar ser coerente, quando não há coerência que explique tudo o que vi nesse simples caminhar. E se no lugar de cada cachorro de raça, existisse uma criança de rua. Porra, coragem, não coloque dinamites na minha mão. 

Estou a ler que na periferia que há de nascer à revolução. Anita, traça-te o teu nome, nesses caminhos curvos. A obscuridade é mesmo abaixar a cabeça a quem te pede ajuda. Mas olha, não é por mal, que isto torna a existir, mas estamos ludibriados a seguir tendências. 

E em quem vamos confiar? A quem vamos estender a mão, como a pintura de o Filho Pródigo.  Coragem, ponha-te no meu lugar, e depois não me fales que estou a fazer loucura. Não me arrede, quando eu já estiver a saltar esta ponte, nada me salva agora.

Esta tarde demais, para me vir com argumentos de que a humanidade basta.

Coragem coloca-te em meu lugar, e cala-te, em silêncio.

Não há igualdade nesta vida que justifique nossa superficialidade.

Não há caminhada que valha sem não houver a quem podemos estender a mão.

Não há caminhada que valha, se por sinal, estivermos sós.

Coragem, ponha-te em meu lugar, e morra, mas não me falhe quando for a hora.

vermelho.

Vende-se seu sonho de infância. Vermelho, sempre novo vermelho. E nesta trilha que andam sozinhos Kieslowski e Almodovar, lado a lado sob chuva e no mesmo ritmo do cotidiano. Eles fogem da dor, mas a dor sempre encontra eles na dobra da esquina de qualquer avenida. Eles estão alheios a todo esse movimento, mas o vermelho sempre é um novo vermelho. O vermelho está lá.

tutto il nostro folle amore

  

vamos deixar esta demagogia de lado, nunca  soube diferenciar alguns verbos de outros tantas vezes ditos. É quase raro quando espontâneo, o resto é uma balança que pondera todo um efeito das ações e sua reverberação, todo sinal fraco, e não é o wi-fi.

Só um pouco de humanidade, talvez ainda há. Ainda uma flor há de nascer entre as rachaduras desta parede certa.

A cidade há de acolher em amparo quem caminha desatento a olhar para o chão, o abraço, o contato há de existir dentro de nossas atividades diárias. 

Talvez, meu computador saiba mais de mim do que qualquer outra pessoa, talvez esse jogo do outro seja um espelho refletido de si próprio.

E toda essa noite que de habitual me ataca a insônia, me ponho a questionar a morte de todas as palavras, a decomposição do verbo.

E aquelas cartas de Fernando Pessoa para não sei mais quem. Tudo o que ele poderia ter dito, e o fez, em cada esquina o seu caminhar. 

Não é nada mais triste do que ser só até mesmo nos próprios textos, nada mais ilusório do que a companhia de outro sobre você, para onde vão os pensamentos quando prevalece o físico? Para onde vai o que resta do pouco que sente ainda quando surgem os pensamentos?

Será eu então incompleta parte de mim? Será o mundo extensão do corpo e do que se torna existir? Será da dor exagero do sentir? E este inconstante jeito de desconstruir, será apenas mistificação?

O que é estar acordado? Ponho-me a ler o que já li. O tom vermelho de um filme que passa é apenas o complemento de um vermelho que acredito.

O vermelho sobre o meu quarto já lançou meu sobrenome, quem treme por sentir o vento na pele, vive mais que intensamente a experiência de uma conexão completa.

Este montoado de noções sobre o sentimento precisam mesmo se reiventar. Só não engana uma coisa, isto não foge a célula, o maldito choque que surge diante de quem te afeta.

Maldito choque este, que faz você ver outro vermelho no vermelho, mas passa como o vento que penetra na célula. É um sentir vulto, como eixo de duas vielas em penumbra, como texto distorcido, água de açoite, lembrança é o que leva no eco desta rouquidão de voz que ficou calada muito tempo. 

Violência é atrito de asfalto em contato com o aro do pneu sem borracha, violência é faísca, no final é fogo. Queima, destroi. Toda violência é autentica e autonoma, desencadeia uma série de ações consequentes. A violência hoje é a maior prova de que nossa natureza corresponde ao que chamamos de autonomia do corpo. 

Mas esta noite não. Estamos condicionados a agir diante de todas as nossas feras como contidos suburbanos ajeitados por seguirem rotas, agrupados em pequeno caos, diariamente gentil e dócio, assim como nossas palavras sombras, assim como roupas e adereços a parte. Estamos riscando aqui a nossa faísca, nosso vermelho, nosso incêndio que nem começou, nossa história sobre linhas metricamente pensadas para corresponder o que nutrimos nas máscaras de nossas fantasias usadas a certeza de que nunca seremos vistos.

nocturne.

entre encontros e desencontros, línguas adversas e significados já em ordem ao dicionário. estes não argumentos e a tendência das ruas noturnas de possuírem charme naturalmente em concordância com o breu, de uma escuridão declarada, já por hábito, não captada por câmera, não há abertura da lente que permita a entrada natural da luz, estes que os olhos complementam por dedução imaginada. esta linguagem da imagem que se forma no instante. esta escuridão trajada, que carregou quilômetros e distâncias de sobrenomes lançados sobre um sussurro.

vozes são fortes, cordas vocais vibram ondas que ultrapassam qualquer barreira física em sua matéria. e por declarar, músicas surgem do silêncio,  do silêncio e do escuro, e as vezes nos escapa, aquilo que estava bem ali a frente, que por explosão e choque, já declarada a decomposição.

Ah, e se por onde há de sentir. Vozes e tons. Utopia de tempos modernos hoje tão declarados, todos os áudios que por determinação enviamos nosso tom.

Por que às vezes a música escapa da música e é apenas o dedilhar, as horas, os aplausos, as vozes compostas. E foge aquilo que por brilho torna noturno toda a imagem, este veludo breu, que compõem o sentir. Este despedaço da decomposição. Esse “des” que fica entre o estar e o ir.

E ao instante posta aqui, neste composto de palavras unidas, tornou-se, apenas um prego preso a sua natureza real, mas por insistência ao que poderia ter mais. Mesmo porquê ninguém toca CHOPIN como ele. E o Nocturne e seus prelúdios e números, sempre vão ser a vã esperança de que lá estará o compositor inicial.

Noites são penetrantes. Um buraco para o centro de si próprio ao desafio de caminhar entre as ruas escuras e com fraca iluminação, como sombras que surgem por luzes rarefeitas. A não existência de luz – faz imagem inigualável.

As horas passam sinceramente, pausadas entre a compreensão de uma dedilhada mais forte, aqui e ali, por interpretação de outro pianista que fura com determinação cada passo a ser dado, em seguida, desses em tantos.

A música que parece escapar pelo bolso, correr a tortura por vias inteiras, entrelaçando janelas iluminadas, frestas e rachaduras. Ao alcançar a ansiedade dos destemidos, a música que foge de si, que escapa-te o controle, toma-te o encontro. Foge com a tendência do teu olhar sobre o céu.

Fica presa no pulso, no tempo do relógio, na célula. As células vibram juntas, todas iguais, daquela por estar a morrer, e a que no último ato, em seu prelúdio, desencanta, o desnacimento de outras mais, curva-te a coluna.

Onde irá agarrar neste campo de não-matéria? O que por ar te leva a crer que há mais do que isto que está vendo? Me escapa a força da palavra que desvela assim só, sua fraqueza contemporânea.

Esta “porta” de interações por declarar todo o seu desgaste, não foge como a música, por ser estática. Mas a de se reconhecer, que nesta “pausa”, tudo é possível, faz-se a música, em pausa, entre ruído e silêncio.

O som é em composição existência e não existência. A esta rua, este breu, navegado pelas curvas e mistério do balançar das árvores, estas árvores fatigadas pelo excesso da poeira, por suas plantas carregadas de densa poluição. E suas curvas que balançam hoje de forma mais pesada, que comprimem, toda ação natural do balançar, por outra nova sintonia de dança.

Esta dança que aos passos, todos dão, no cotidiano semanal.  É a mesma dança que os calendários dão por anunciar. A dança do padeiro que oferece pães frescos logo pela manhã. A dança dos empregados, e suas malas, bagagens soltas, e roupas ordenadas.

Esta rotina que a dança emprega. A mesma dança que hoje a noite, por silêncio e breu, pausadamente, torna-se ensaiada, de todas as noites, a noite em que Nocturne colocou a existir, por essência, um pouco do que lhe é vago.

Este ritmo. Este ruído. Esta noite. Este breu. Escapou-me a música, a música que por vez, nunca existiu neste plano. estando por em tantos, deixo, por desejo e algúria, ser por breve instante o que já me escapou quando percebi.

Carta para M.

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A cidade de São Paulo é fria, as pessoas estão sempre com presa, falam rápido, andam rápido. Vivem com a cabeça baixa a olhar o celular. Estão atentas a todas as notificações passageiras de seus aplicativos conectados. Mas olhares quase não se encontram, e quando se encontram são mais vagos que transeunte em dia de chuva que para a pensar na vida.

É raro também quando estamos ouvindo todo este complexo noise urbano. Todos os ruídos, da respiração ofegante, o bufante acelerado de cada um. Somos todos tão individuais em nosso próprio mundo.

Todo dia faço esse caminho. Todo dia acordo diferente para ver algo que antes não se mostrava. Todo dia é uma rachadura nova que surge, a parede fica mais desbotada, desfoco por hora um plano inteiro. Sempre conectamos o som daquela playlist separada a dedo. Ou talvez, um álbum tão consonante com a nossa vida.

Somos individuais. Mas quero dividir essa imagem com você. Este traçado urbano. Esta passagem. Todo dia, estou a passar por cima deste viaduto movimentado, que recebe os ruídos do barulho e em resposta deixa estar este movimento, que sentimos com os pés.

O que nesta imagem arranco forças para lançar passo a passo todo o trajeto que terei que lançar, de novo e de novo. É porque diante deste cinza todo, tem cores ali naquele prédio torto. Cores de quem um dia resolveu de que ali deveria ter cores, apenas. Eu por vezes tento me por a imaginar que talvez com bexigas e tintas esta ação tornou-se possível. Mas que talvez essa pessoa, acordou um certo dia, olhando pela tua sacada cinza, cheio de chuva lá fora, colocou em sua mala bexigas e tintas e disse: foda-se. Vou colorir este prédio!

Tenho este desejo. De colorir este prédio, todos os dias…

Alterações dinâmicas

Sobre o instante: Quando ao ler uma nota musical, entendemos que tudo está em jogo: o ritmo, a precisão, a intensidade do dedilhar, a posição dos dedos, a postura. O sentir de cada nota, separadas não dizem nada. É o belo de uma música expressada que está entre o silêncio e o som, e aquela nota que sussurrando, torna-se forte, que alcança a propriedade do seu silêncio para reforçar a intensidade que deve ser expressada. O silêncio me diz muito mais do que qualquer outra coisa possa dizer. O silêncio entre “isto” e aquilo”. O Silêncio é uma ponte necessária. Pontes são construções fortes, mesmo assim não nos fazem inteiros. É preciso partir… É preciso chegar… Ao atravessar uma ponte invocamos todos os tempos verbais. Por isso, o meu lugar favorito no mundo, está no “entre”, local do encontro. O meio da ponte, é lá o devir do caminho. É lá, onde está o nosso instante! É esse instante que importa à minha escrita.