mutações

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Estamos saturados pelo não encontro, mas nosso desgaste não é do tempo.  Já havia dito que seu olhar existe dentro de mim, de maneira ilegal. Como os trotskistas em um regime comunista na Tchecoslováquia.

E não é só por isso o meu encanto, esse estranhamento diário, expressado ao silêncio, intensidade de palavras tantas vezes não ditas. Espelho de variações, como irá me ver daqui há duas horas? A incoerente curva racional.

Limitações são cargas de tempo e espaço. Pelo menos sei que você estará lá naquele lugar desconhecido, reservado apenas para você. Isto de longe, não é uma sinfonia. Uma música sem as prescrições de ritmo. Goethe olharia do outro lado da rua nossa janela mal iluminada, você deixou a cortina tampando o sol. Nossas sombras se encaixam de maneira desordenada.

Desde que nos conhecemos. Já estávamos aqui. Nesse momento indiscreto, idiocromático. Nesse caos formado pelo desconhecimento do outro, a falta de espaço, reconhecimento de si. Estamos entre, o não verso e o impossível. Como duas forças naturais que são opostas e que juntas, após processo químico, já deixam de ser as mesmas substâncias.

Nosso maior risco não é reconhecer o quanto de nós pertence apenas a nós mesmos. Nosso maior risco está justamente em aceitar os nossos limites diários. Deixamos na instância do possível, do enquadramento, a formulação do que seria apenas a sombra de nós.

Goethe na chuva, asfalto molhado e iluminação alaranjada, um dia nublado, com chuva. Dia de contemplação. Mais um dia de nossas vidas controladas por agendas. Mais um dia para esvaziar os meus conceitos de mundo, para declarar oficialmente o meu desprezo, o meu desânimo pelo mundo.

E ainda é segunda-feira.

não quero abrir nenhum livro

Minha dificuldade em abrir algum livro é tamanha que compro tantos livros, para começar ler bem depois algumas páginas, e desisto. Tantas linhas e páginas para uma história às vezes tão boa que não seria suficiente, ou péssima, que o que importa no livro são meia dúzia de palavras.

não quero abrir nenhum livro. porque a vida está acontecendo ali fora. fora desse computador, desse blog, da minha serie favorita, da minha playlist selecionada, do meu celular com 3g ligado, das minhas redes sociais. a vida tá acontecendo lá fora.

naquele lugar onde estranhos se esbarram e não se percebem. onde olhares não são trocados porque todos estão com a cabeça baixa trocando alguns diálogos no whats app ou fazendo a sua melhor performance no candysuch, ou qualquer coisa assim.

não é uma crítica, não quero ser tão clichê de dizer que tudo isso é superficial e vago. eu faço parte de tudo isso, metade de mim ou mais é a representação que eu tenho, o olhar do outro, e o que isso muda na realidade? não muda muita coisa, além da própria interação.

talvez, o ato presencial não seja assim tão importante, a ilusão ela é muito mais poderosa do que a própria realidade. criar expectativas o torna mais feliz por mais tempo, do  que apenas ter  algumas vontades realizadas. viver todos os momentos presentes é gostoso, é real, faz parte do sentir. mas tudo o que se cria até esse momento, vem da ilusão e projeção que jogamos nesses lugares compartilhados.

somos fisgados pelas nossas próprias vontades e caímos pelos nossos próprios tropeços. porque é um diálogo de você para você mesmo, é uma imagem sua que está em constante mudança – através do olhar do outro. e sempre foi assim, mesmo antes das redes sociais.

nada é sólido e nunca foi. essas coisas de relacionamentos, de eternizar coisas e momentos, é parte do comportamento humano de não querer aceitar a mortalidade. isso é tão massante como a primeira aula de filosofia que todos nós já tivemos.

eu acredito na espontaneidade e autenticidade. criar elos para mim, vai para o fato de você conseguir ser totalmente cúmplice à alguém. é como uma sintonia de duas vias, bate em você, volta na pessoa, e mantém um certo sentido disso tudo. nos deixa vagando nessa ilusão da vida.

acreditar que nossa existência está fazendo algum certo sentido. ou resolver a problemática da  existência, vivendo e esquecendo da sua importância. Porque toda a nossa importância é apenas uma questão de mostrarmos que estamos vivos. E estar vivo, requer a presença do outro.

Sem outro, o que há na vida? Quem sou eu, sem o olhar do outro?

gramaturas.

que ato sincero é esse de chorar? não entendo. como o descontrole de algumas lágrimas podem nos afetar tanto internamente, mas ao expor um mínimo de fragilidade. já estamos nos negando por inteiro. aos silêncios, e olhares. toques cheios de ternura, docilidade de palavras que estão por vir. mas atrasadas, fogem.

são negadas todas as formas de amor por instantes. são desnecessárias todas as tentativas de dois corpos estáticos. ao seguir todo ritmo da cidade, coditiano como samba de madrugada, quase chorinho.

a mas se fosse jazz. todas essas ruas estariam embaralhadas, esperando por um sinal seu, tão pequeno. abraço esse que só vem por virtualidade. sorriso esse que acaba em avenidas movimentadas. as luzes da cidades estão borradas, choveu.

toda tentativa de acreditar em algo simples, como o cheiro da manhã e um sol. da manhã e o sol, esse dia, espero de mim, a pequena percepção de uma paz. a paz de uma janela que recebe o contorno do sol. paz de estar bem consigo mesmo. mas afinal, quem somos? poeira do cotidiano que passa, todo mundo corre. e o meu relógio já está parado faz tempo.

toda hora, são 7 horas. todo banco, a eternidade. toda sombra, é o tempo. e todo o refrão que quebra no peito, fortalece. amanhã é uma alvorada, projeção necessária, só lembro o verso: meu caminho é de pedra, como posso sonhar? aos olhos turvos, expressão de desejo que se aproxima com calma.

aos olhos turvos, lágrimas de quem sofre por uma vida infeliz. uma vida que não permite mais do que o necessário. uma vida de merda. de tampar os buracos de toda avenida. a avenida que morre na estrada. não há dignidade na morte.

2222

Meu desejo foi sempre ter uma faca, um gume  que pudesse à vista minhas vísceras, libertasse meu cérebro, meu coração. Que me libertasse do que tenho aqui dentro, cortasse minha língua e meu sexo. Uma lâmina afiada que raspasse minha impureza. Então aquilo a que chamamos espírito se libertaria deste cadáver sem significado. Spegel. 

deslocamentos.

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Faísca. Luz viva, semelhante a um relâmpago que salta um ruído entre um corpo eletrizado e um corpo condutor de eletricidade. 

Atrito. Força de contato, que atua sempre em que dois corpos entram em choque e há tendência ao movimento. A força do atrito é sempre paralela a interação com a superfície e contrária ao movimento entre eles.

Força. É uma grandeza que tem a capacidade de vencer a inércia de um corpo, modificando a velocidade, causando deformação.

Grandeza. São consideradas grandezas propriedades de um fenômeno, corpo físico ou substância. Podem ser equivalentes e medidos por número, comprimento, quantidade de matéria e energia.

Energia.  Produzida entre dois sistemas físicos em interação. Quando dois sistemas físicos interagem entre si, mudanças nos dois sistemas ocorrem. Embora essas mudanças, podem ser de naturezas muito ou mesmo completamente distintas.

Movimento. É a variação de posição espacial ou ponto material no decorrer do tempo. Aristóteles define o movimento como passagem de potência a ato, diferenciando o movimento como deslocamento no espaço, como mudança ou alteração de uma natureza, como crescimento e diminuição, geração ou destruição.

Como se explica que as mesmas imagens possam entra ao mesmo tempo em dois temas diferentes, um onde cada imagem varia em função dela mesmo e na medida bem definida em que sofre a ação real das imagens vizinhas, o outro onde todas variam em função de uma única, e na medida variável em que elas refletem a ação possível dessa imagem privilegiada? (BERGSON,1999 p.21).

wild.

Imagem

minhas mãos são frias. o termômetro corporal pulsando segundo a segundo, o batimento escorrendo em minhas veias. meu sangue pulsa este descontrole desmedido, sem variação de cor.

estou queimando em febre, 40 graus, de um sol morto. radiação queimando a minha pele de bicho, pele com espessura, marcada pela estrada. meus pêlos molhados balançam com o vento.

você tem um ritmo de jazz incorporado, eu estou estralando os dedos e mudando essa música na jukebox, entrou belle & sebastian, your cover’s blown. todos nós do bar, começamos a dançar, ternos roxos, sapatos verdes, pisos de madeira molhado, cerveja espumante.

vou te chamar para dançar. estou repetindo comigo mesmo write down a list of things you want to do. quero fazer esse convite de viagem. não existe formalidade em nosso olhar.

peço licença, corro para o banheiro. quero roubar você para mim. my animal instinct pulsando, estou no controle, tudo sobre o controle. vou saindo do banheiro, com aquela máscara calma e misteriosa, te chamei pra dançar.

cheiro de lugar apertado, a música quebra a nossa distância inicial. peço outras bebidas. todos os amigos rindo de qualquer coisa. a nossa dança é quase uma rima sem sequência.

você ficando desajeitada, roupas amassadas. preciso ir embora daqui, antes que seja tarde de mais. tenho um minuto para não me apaixonar. e não querer fazer sexo com você.

a luz colorida roxa, verde, e depois amarela. não consigo sair, droga. quero continuar a viagem, preciso seguir meus instintos. não preciso me preocupar com isso hoje. mais bebida, a música acaba. não temos mais a dança como desculpa, agora temos que falar. preciso falar alguma coisa.

get me away from here i’m dying, começa outra música. abrimos um sorriso e então não dizemos nada, vamos caminhando para fora. não precisamos dizer nada. não preciso saber o nome dela e nem ela o meu.

a noite com uma lua gigante, rua deserta, minha moto logo lá fora. pessoas fumando na beirada. você coloca sua mão por dentro da minha calça. play me a song to set me free.

não sobra mais nada. nem preciso saber o seu nome. agora preciso ir, here on my own now after hours. ligo minha moto. vou atrás do meu amor. my wild.

trago flores do deserto para você. e meu sorriso de lado, meu olhar pegando fogo. mas eu sei, que com você não é só desejo. eu ainda carrego nossas fotos dentro da carteira. e lembro do dia em que você disse eu te amo.

I always cry at endings.