tutto il nostro folle amore

  

vamos deixar esta demagogia de lado, nunca  soube diferenciar alguns verbos de outros tantas vezes ditos. É quase raro quando espontâneo, o resto é uma balança que pondera todo um efeito das ações e sua reverberação, todo sinal fraco, e não é o wi-fi.

Só um pouco de humanidade, talvez ainda há. Ainda uma flor há de nascer entre as rachaduras desta parede certa.

A cidade há de acolher em amparo quem caminha desatento a olhar para o chão, o abraço, o contato há de existir dentro de nossas atividades diárias. 

Talvez, meu computador saiba mais de mim do que qualquer outra pessoa, talvez esse jogo do outro seja um espelho refletido de si próprio.

E toda essa noite que de habitual me ataca a insônia, me ponho a questionar a morte de todas as palavras, a decomposição do verbo.

E aquelas cartas de Fernando Pessoa para não sei mais quem. Tudo o que ele poderia ter dito, e o fez, em cada esquina o seu caminhar. 

Não é nada mais triste do que ser só até mesmo nos próprios textos, nada mais ilusório do que a companhia de outro sobre você, para onde vão os pensamentos quando prevalece o físico? Para onde vai o que resta do pouco que sente ainda quando surgem os pensamentos?

Será eu então incompleta parte de mim? Será o mundo extensão do corpo e do que se torna existir? Será da dor exagero do sentir? E este inconstante jeito de desconstruir, será apenas mistificação?

O que é estar acordado? Ponho-me a ler o que já li. O tom vermelho de um filme que passa é apenas o complemento de um vermelho que acredito.

O vermelho sobre o meu quarto já lançou meu sobrenome, quem treme por sentir o vento na pele, vive mais que intensamente a experiência de uma conexão completa.

Este montoado de noções sobre o sentimento precisam mesmo se reiventar. Só não engana uma coisa, isto não foge a célula, o maldito choque que surge diante de quem te afeta.

Maldito choque este, que faz você ver outro vermelho no vermelho, mas passa como o vento que penetra na célula. É um sentir vulto, como eixo de duas vielas em penumbra, como texto distorcido, água de açoite, lembrança é o que leva no eco desta rouquidão de voz que ficou calada muito tempo. 

Violência é atrito de asfalto em contato com o aro do pneu sem borracha, violência é faísca, no final é fogo. Queima, destroi. Toda violência é autentica e autonoma, desencadeia uma série de ações consequentes. A violência hoje é a maior prova de que nossa natureza corresponde ao que chamamos de autonomia do corpo. 

Mas esta noite não. Estamos condicionados a agir diante de todas as nossas feras como contidos suburbanos ajeitados por seguirem rotas, agrupados em pequeno caos, diariamente gentil e dócio, assim como nossas palavras sombras, assim como roupas e adereços a parte. Estamos riscando aqui a nossa faísca, nosso vermelho, nosso incêndio que nem começou, nossa história sobre linhas metricamente pensadas para corresponder o que nutrimos nas máscaras de nossas fantasias usadas a certeza de que nunca seremos vistos.

nocturne.

entre encontros e desencontros, línguas adversas e significados já em ordem ao dicionário. estes não argumentos e a tendência das ruas noturnas de possuírem charme naturalmente em concordância com o breu, de uma escuridão declarada, já por hábito, não captada por câmera, não há abertura da lente que permita a entrada natural da luz, estes que os olhos complementam por dedução imaginada. esta linguagem da imagem que se forma no instante. esta escuridão trajada, que carregou quilômetros e distâncias de sobrenomes lançados sobre um sussurro.

vozes são fortes, cordas vocais vibram ondas que ultrapassam qualquer barreira física em sua matéria. e por declarar, músicas surgem do silêncio,  do silêncio e do escuro, e as vezes nos escapa, aquilo que estava bem ali a frente, que por explosão e choque, já declarada a decomposição.

Ah, e se por onde há de sentir. Vozes e tons. Utopia de tempos modernos hoje tão declarados, todos os áudios que por determinação enviamos nosso tom.

Por que às vezes a música escapa da música e é apenas o dedilhar, as horas, os aplausos, as vozes compostas. E foge aquilo que por brilho torna noturno toda a imagem, este veludo breu, que compõem o sentir. Este despedaço da decomposição. Esse “des” que fica entre o estar e o ir.

E ao instante posta aqui, neste composto de palavras unidas, tornou-se, apenas um prego preso a sua natureza real, mas por insistência ao que poderia ter mais. Mesmo porquê ninguém toca CHOPIN como ele. E o Nocturne e seus prelúdios e números, sempre vão ser a vã esperança de que lá estará o compositor inicial.

Noites são penetrantes. Um buraco para o centro de si próprio ao desafio de caminhar entre as ruas escuras e com fraca iluminação, como sombras que surgem por luzes rarefeitas. A não existência de luz – faz imagem inigualável.

As horas passam sinceramente, pausadas entre a compreensão de uma dedilhada mais forte, aqui e ali, por interpretação de outro pianista que fura com determinação cada passo a ser dado, em seguida, desses em tantos.

A música que parece escapar pelo bolso, correr a tortura por vias inteiras, entrelaçando janelas iluminadas, frestas e rachaduras. Ao alcançar a ansiedade dos destemidos, a música que foge de si, que escapa-te o controle, toma-te o encontro. Foge com a tendência do teu olhar sobre o céu.

Fica presa no pulso, no tempo do relógio, na célula. As células vibram juntas, todas iguais, daquela por estar a morrer, e a que no último ato, em seu prelúdio, desencanta, o desnacimento de outras mais, curva-te a coluna.

Onde irá agarrar neste campo de não-matéria? O que por ar te leva a crer que há mais do que isto que está vendo? Me escapa a força da palavra que desvela assim só, sua fraqueza contemporânea.

Esta “porta” de interações por declarar todo o seu desgaste, não foge como a música, por ser estática. Mas a de se reconhecer, que nesta “pausa”, tudo é possível, faz-se a música, em pausa, entre ruído e silêncio.

O som é em composição existência e não existência. A esta rua, este breu, navegado pelas curvas e mistério do balançar das árvores, estas árvores fatigadas pelo excesso da poeira, por suas plantas carregadas de densa poluição. E suas curvas que balançam hoje de forma mais pesada, que comprimem, toda ação natural do balançar, por outra nova sintonia de dança.

Esta dança que aos passos, todos dão, no cotidiano semanal.  É a mesma dança que os calendários dão por anunciar. A dança do padeiro que oferece pães frescos logo pela manhã. A dança dos empregados, e suas malas, bagagens soltas, e roupas ordenadas.

Esta rotina que a dança emprega. A mesma dança que hoje a noite, por silêncio e breu, pausadamente, torna-se ensaiada, de todas as noites, a noite em que Nocturne colocou a existir, por essência, um pouco do que lhe é vago.

Este ritmo. Este ruído. Esta noite. Este breu. Escapou-me a música, a música que por vez, nunca existiu neste plano. estando por em tantos, deixo, por desejo e algúria, ser por breve instante o que já me escapou quando percebi.

Carta para M.

SP_Anhangabaú_SA

A cidade de São Paulo é fria, as pessoas estão sempre com presa, falam rápido, andam rápido. Vivem com a cabeça baixa a olhar o celular. Estão atentas a todas as notificações passageiras de seus aplicativos conectados. Mas olhares quase não se encontram, e quando se encontram são mais vagos que transeunte em dia de chuva que para a pensar na vida.

É raro também quando estamos ouvindo todo este complexo noise urbano. Todos os ruídos, da respiração ofegante, o bufante acelerado de cada um. Somos todos tão individuais em nosso próprio mundo.

Todo dia faço esse caminho. Todo dia acordo diferente para ver algo que antes não se mostrava. Todo dia é uma rachadura nova que surge, a parede fica mais desbotada, desfoco por hora um plano inteiro. Sempre conectamos o som daquela playlist separada a dedo. Ou talvez, um álbum tão consonante com a nossa vida.

Somos individuais. Mas quero dividir essa imagem com você. Este traçado urbano. Esta passagem. Todo dia, estou a passar por cima deste viaduto movimentado, que recebe os ruídos do barulho e em resposta deixa estar este movimento, que sentimos com os pés.

O que nesta imagem arranco forças para lançar passo a passo todo o trajeto que terei que lançar, de novo e de novo. É porque diante deste cinza todo, tem cores ali naquele prédio torto. Cores de quem um dia resolveu de que ali deveria ter cores, apenas. Eu por vezes tento me por a imaginar que talvez com bexigas e tintas esta ação tornou-se possível. Mas que talvez essa pessoa, acordou um certo dia, olhando pela tua sacada cinza, cheio de chuva lá fora, colocou em sua mala bexigas e tintas e disse: foda-se. Vou colorir este prédio!

Tenho este desejo. De colorir este prédio, todos os dias…

Alterações dinâmicas

Sobre o instante: Quando ao ler uma nota musical, entendemos que tudo está em jogo: o ritmo, a precisão, a intensidade do dedilhar, a posição dos dedos, a postura. O sentir de cada nota, separadas não dizem nada. É o belo de uma música expressada que está entre o silêncio e o som, e aquela nota que sussurrando, torna-se forte, que alcança a propriedade do seu silêncio para reforçar a intensidade que deve ser expressada. O silêncio me diz muito mais do que qualquer outra coisa possa dizer. O silêncio entre “isto” e aquilo”. O Silêncio é uma ponte necessária. Pontes são construções fortes, mesmo assim não nos fazem inteiros. É preciso partir… É preciso chegar… Ao atravessar uma ponte invocamos todos os tempos verbais. Por isso, o meu lugar favorito no mundo, está no “entre”, local do encontro. O meio da ponte, é lá o devir do caminho. É lá, onde está o nosso instante! É esse instante que importa à minha escrita.

mutações

kleinw (1)

Estamos saturados pelo não encontro, mas nosso desgaste não é do tempo.  Já havia dito que seu olhar existe dentro de mim, de maneira ilegal. Como os trotskistas em um regime comunista na Tchecoslováquia.

E não é só por isso o meu encanto, esse estranhamento diário, expressado ao silêncio, intensidade de palavras tantas vezes não ditas. Espelho de variações, como irá me ver daqui há duas horas? A incoerente curva racional.

Limitações são cargas de tempo e espaço. Pelo menos sei que você estará lá naquele lugar desconhecido, reservado apenas para você. Isto de longe, não é uma sinfonia. Uma música sem as prescrições de ritmo. Goethe olharia do outro lado da rua nossa janela mal iluminada, você deixou a cortina tampando o sol. Nossas sombras se encaixam de maneira desordenada.

Desde que nos conhecemos. Já estávamos aqui. Nesse momento indiscreto, idiocromático. Nesse caos formado pelo desconhecimento do outro, a falta de espaço, reconhecimento de si. Estamos entre, o não verso e o impossível. Como duas forças naturais que são opostas e que juntas, após processo químico, já deixam de ser as mesmas substâncias.

Nosso maior risco não é reconhecer o quanto de nós pertence apenas a nós mesmos. Nosso maior risco está justamente em aceitar os nossos limites diários. Deixamos na instância do possível, do enquadramento, a formulação do que seria apenas a sombra de nós.

Goethe na chuva, asfalto molhado e iluminação alaranjada, um dia nublado, com chuva. Dia de contemplação. Mais um dia de nossas vidas controladas por agendas. Mais um dia para esvaziar os meus conceitos de mundo, para declarar oficialmente o meu desprezo, o meu desânimo pelo mundo.

E ainda é segunda-feira.

não quero abrir nenhum livro

Minha dificuldade em abrir algum livro é tamanha que compro tantos livros, para começar ler bem depois algumas páginas, e desisto. Tantas linhas e páginas para uma história às vezes tão boa que não seria suficiente, ou péssima, que o que importa no livro são meia dúzia de palavras.

não quero abrir nenhum livro. porque a vida está acontecendo ali fora. fora desse computador, desse blog, da minha serie favorita, da minha playlist selecionada, do meu celular com 3g ligado, das minhas redes sociais. a vida tá acontecendo lá fora.

naquele lugar onde estranhos se esbarram e não se percebem. onde olhares não são trocados porque todos estão com a cabeça baixa trocando alguns diálogos no whats app ou fazendo a sua melhor performance no candysuch, ou qualquer coisa assim.

não é uma crítica, não quero ser tão clichê de dizer que tudo isso é superficial e vago. eu faço parte de tudo isso, metade de mim ou mais é a representação que eu tenho, o olhar do outro, e o que isso muda na realidade? não muda muita coisa, além da própria interação.

talvez, o ato presencial não seja assim tão importante, a ilusão ela é muito mais poderosa do que a própria realidade. criar expectativas o torna mais feliz por mais tempo, do  que apenas ter  algumas vontades realizadas. viver todos os momentos presentes é gostoso, é real, faz parte do sentir. mas tudo o que se cria até esse momento, vem da ilusão e projeção que jogamos nesses lugares compartilhados.

somos fisgados pelas nossas próprias vontades e caímos pelos nossos próprios tropeços. porque é um diálogo de você para você mesmo, é uma imagem sua que está em constante mudança – através do olhar do outro. e sempre foi assim, mesmo antes das redes sociais.

nada é sólido e nunca foi. essas coisas de relacionamentos, de eternizar coisas e momentos, é parte do comportamento humano de não querer aceitar a mortalidade. isso é tão massante como a primeira aula de filosofia que todos nós já tivemos.

eu acredito na espontaneidade e autenticidade. criar elos para mim, vai para o fato de você conseguir ser totalmente cúmplice à alguém. é como uma sintonia de duas vias, bate em você, volta na pessoa, e mantém um certo sentido disso tudo. nos deixa vagando nessa ilusão da vida.

acreditar que nossa existência está fazendo algum certo sentido. ou resolver a problemática da  existência, vivendo e esquecendo da sua importância. Porque toda a nossa importância é apenas uma questão de mostrarmos que estamos vivos. E estar vivo, requer a presença do outro.

Sem outro, o que há na vida? Quem sou eu, sem o olhar do outro?