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minhas mãos são frias. o termômetro corporal pulsando segundo a segundo, o batimento escorrendo em minhas veias. meu sangue pulsa este descontrole desmedido, sem variação de cor.

estou queimando em febre, 40 graus, de um sol morto. radiação queimando a minha pele de bicho, pele com espessura, marcada pela estrada. meus pêlos molhados balançam com o vento.

você tem um ritmo de jazz incorporado, eu estou estralando os dedos e mudando essa música na jukebox, entrou belle & sebastian, your cover’s blown. todos nós do bar, começamos a dançar, ternos roxos, sapatos verdes, pisos de madeira molhado, cerveja espumante.

vou te chamar para dançar. estou repetindo comigo mesmo write down a list of things you want to do. quero fazer esse convite de viagem. não existe formalidade em nosso olhar.

peço licença, corro para o banheiro. quero roubar você para mim. my animal instinct pulsando, estou no controle, tudo sobre o controle. vou saindo do banheiro, com aquela máscara calma e misteriosa, te chamei pra dançar.

cheiro de lugar apertado, a música quebra a nossa distância inicial. peço outras bebidas. todos os amigos rindo de qualquer coisa. a nossa dança é quase uma rima sem sequência.

você ficando desajeitada, roupas amassadas. preciso ir embora daqui, antes que seja tarde de mais. tenho um minuto para não me apaixonar. e não querer fazer sexo com você.

a luz colorida roxa, verde, e depois amarela. não consigo sair, droga. quero continuar a viagem, preciso seguir meus instintos. não preciso me preocupar com isso hoje. mais bebida, a música acaba. não temos mais a dança como desculpa, agora temos que falar. preciso falar alguma coisa.

get me away from here i’m dying, começa outra música. abrimos um sorriso e então não dizemos nada, vamos caminhando para fora. não precisamos dizer nada. não preciso saber o nome dela e nem ela o meu.

a noite com uma lua gigante, rua deserta, minha moto logo lá fora. pessoas fumando na beirada. você coloca sua mão por dentro da minha calça. play me a song to set me free.

não sobra mais nada. nem preciso saber o seu nome. agora preciso ir, here on my own now after hours. ligo minha moto. vou atrás do meu amor. my wild.

trago flores do deserto para você. e meu sorriso de lado, meu olhar pegando fogo. mas eu sei, que com você não é só desejo. eu ainda carrego nossas fotos dentro da carteira. e lembro do dia em que você disse eu te amo.

I always cry at endings.

ImagemIndian summer, capache. toureiros desempregados esvaziam seus bolsos, não tenho nada para oferecer, mas tem um cartaz colocado na parede de abertura da art gallery  “vende-se sonho em gaiolas”.

como havia perdido o meu, que há tempos luz está na minha frente, visto toda a dificuldade da real life em manter suas forças diante dele. ele já está viajando a paris, caminhando calmo, comprando livros de filosofia e colecionando artigos científicos sobre botânica.

já em sua totalidade, pode ler o manifesto surrealista de Breton, dentro da pintura do sonho encontrei uma versão de pixels formando a imagem de Man Ray beijando Marx Ernst, era um quadro gigante dentro de uma sala de estar cheia de gatos de porcelana.

talvez fosse apenas uma sala de visita para os mais íntimos, tiro essa conclusão, da coleção infinita de imagens de bundas sendo penetradas ao delírio surrealista da época. em troca, talvez, seja esse um capítulo perdido de Moebius e inspiração para La Société du Spectacle.

ouça esse som dos estralos do fogo queimando no fogo, gosto desse som.  veja os números do calendário em ordem inversa, sempre bom começar o mês no dia 30 e terminar no dia 1, e os ponteiros, são sete para cada hora, marcando o tempo é atemporal, não existe. Encontrei imãs da geladeira, Camus e Sartre beijando Behaviour. todos nos sabíamos, assim como Morgana amava Lancelot, e não Arthur.

telas gigantes, com imagens projetando textos em seguida, textos enchendo potes de tintas, como em uma engrenagem laboratorial onírica, se tornando imagens puras, imagens que tocam e sente, em uma variação de movimento, profundida, por fim, sentimento e intenção.

Godard havia feito um novo filme, nunca antes revelado, a luta dos lobos famintos, fragmentando fotos 3×4 em uma busca da identidade humana na diferenciação das nuances do comportamento.

tinha até lá, o sofá verde de Bergman, com cheiro de Liv Ulmann e suas recordações do vulcão profundo sensorial berguiano. descalço, comecei a subir as escadas, devagar e em silêncio com medo de encontrar alguém ali.

daquelas vidas todas públicas para minha surpresa, Freud e Jung costurando tricô juntos em uma foto sépia com manchas amareladas na borda. sempre soube dessas influências kantianas pré socráticas.

achei um livro sobre amor, era de Schendel.

Imagemcuspa vida em mim, amor!

 

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me seduza, ascendi um cigarro. e nem sou blasé, não leio sobre moda e tão pouco a news economic. acredito no modern love de bowie e gosto de chapéus. não em mim, mas em cabeças que terminam com curvas e acentuam o nariz estranho. 

paletós, taxas e fitas métricas (não estou em uma ateliê) é um depósito, entulho de tralhas. quero que você responda uma pergunta, rebel, rebel. você vai vir aqui amanhã a noite? 

estou preparando um poema para você. uma poema que eu vou escrever na sua pele sem roupa. com tinta preta, vou rabiscar frases soltas, quero dizer para o seu corpo, em você, apenas que protège-moi, protect me from what I want! 

abra a janela agora! o mundo que você vê é o mundo que você vai me mostrar. minha palheta de cores está muito cromática, respeitando a temperatura do meu peito que está explodindo dentro de mim mil possibilidades de nós.

me traga uma cerveja, essa noite, eu vou escapar de todos os amigos, de todos os meus compromissos que me tomam horas. abra a janela do carro, sinta o vento entrar, deixe suas roupas largas, rasgue sua agenda essa noite.

desligue o celular. deixe, que eu tiro a roupa. tem um teto de estrelas no meu quarto que ficam acessos quando eu apago a luz. e eu nunca ascendo. quero fingir constelações inteiras. inventar mundos debaixo da cama. viajar dentro de lençóis. 

sentindo o seu corpo, as curvas, o movimento delicado da sua perna. eu quebrei todos os meus Cds de música down until the sadness. quero leveza, baby!

você não vê que estou trapaceando com esses textos, que estou abrindo a janela para gravarem um filme nosso. quero ver a nossa cena, que nem Bernardo Bertolucci imaginou com sua musa. 

cheiro de flor no ar, perdi o sono essa noite. sinto ternura no peito, vírgula na pausa, sinto nosso cheiro misturado. cheiro de hortelã com canela, cheiro de dúvida. minhas intenções não são as melhores com você. 

quero deixar todas as marcas. 

 

 

 

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mudei o meu tom. estou amarelada, gozando com a vida. cansei de levar as coisas no mundo quadriculado, já levei? eles vão casar, vão ter filhos. eu vou viajar, estou berrando vida em orelha alheia que me cruzar.

meu carro em alta velocidade e nem sou eu que estou acelerando. o dia está subindo com força, a mesma força que sobe um alpinista com objetivo. minhas linhas são transversais e não perpendiculares.

sou um animal com todas as patas. quero correr para onde minha vida é o natural. rimo ritmo da sensação de peito fervendo. gritos são de vida condicionada. eu disse adeus. sem, mais nenhuma chance.

preciso encontrar minha manada. só lembro detalhes da caverna e o seu cabelo ‘dead lucky’ penteado de sucesso dos anos 2000. tempo, tempo, tempo, tempo, tempo, tem, po. under. under, pressure.

viram minhas roupas jogadas no chão. estão todos me vendo nua, meus peitos gelados contra o vento. meu cabelo enroscado. minha cara de pressing down sendo aliviada. é o prazer!

a vez, minha vez! como um palavrão sincero de amigo. porra! você mudou! ao meus duvidosos dentes caninos, me impulsionando, comendo carne crua, me melando de sangue cheio de vida.

a vida está dançando comigo, ela está cheia de vida. quem é ela? quero o seu sorriso, seu olhar, seu entusiasmo! quero tudo. quero o sol. a nuvem inteira. aquela fotografia que montamos em paradise town.

meus elementos visuais, under pressure. love. love. love. love. love. ai, ai. respira, respira. para de tirar fotos nuas minhas. para de sorrir olhando no meu olhar. para de jogar charme na areia e construir uma praia inteira.

corra! estou a mais de 290 km/h guiada por mapas manchados de tinta guache. give love, give love, give love, give love, give love. panela de pressão fervendo, apitando, o som da tevê na novela das oito berrando no ouvido da mãe.

me cubra com suas dúvidas e me chame de mal. afinal, eu não presto para brincar de lego. mas gosto de brincar com facas. o perigo! that’s ok. as pessoas nas ruas, elas sim, são cheias de tentações como eu.

todas as libidos dançando o novo funk carioca sensation remix do dj buceta. cortinas fechando ao mesmo tempo. It’s the terror of knowing. o espetáculo está virando performance. teatrologers, logados, curtindo o meu umbigo quadrado.

a senhorinha com óculos grau 3 tecendo a cruzada top 10 da revista ti ti ti ti, personagens da novela, quem é a bicha má? F-E-L-I-X.  Why? Why? Why? Why?

chame pelo meu nome inteiro, que eu vou. marque para o próximo evento dos intelectuais de esquerda marxistas nilistas sofistas da cidade ou o evento apocalíptico dos ecos sustentáveis. consegui minha credencial para entrar na sua vida.

what this world is about?  Watching some good friends screaming let me out! Corra, pegue o ônibus, metrô, trem, venha até a praça protestar comigo. estou pedindo um novo feriado, estou de saco cheio de pessoas de terno e de conversas sobre futebol.

why can’t we give love that one more chance? deixe-me ir! comprei passagem para Taguaratibá. Vamos nos encontrar em serra pelada, estou com a fitinha de Nossa Senhora Aparecida torcida em dois nós. com a rádio na estação de brazilian music, ouvindo correnteza de Djavan.

meu celular tocou. mudei até a imagem de abertura. agora tem uma foto provocando você, and loves dares you to change our way of caring about ourselves.

quero você. this is our last dance.

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sorrisos contidos em mim quando eu escondo que não há mais nada de interessante no universo do meu computador desta tarde temporal, medida pela alternância de humor, já me disseram hoje que há muito retalho na rua 13.

mas ando procurando pinturas fora de moldura, sabe, esses dias, andando no metrô, eu sei que apesar de todo mundo carregar réguas e calculadoras na bolsa, elas carregam insuficiência intelectual e debilidade na cabeça.

certa vez, costurei uma roupa rasgada para entender o que de fato a pessoa queria de mim. as pessoas sempre querem algo de nós. eu não quero nada de ninguém, obrigada. estou agradecida hoje, afinal, amanhã é depois de uma hora.

eu me importo. não abro mais o jornal diário, o que não me faz nenhuma falta, vou fazer como Mário Peixoto, comprar um sítio no meio de uma ilha que fica entre o choque do mar e a força do vento.

vida, afinal, uma velocidade esta. o que ando fazendo com você? estou deixando meus anseios dentro de gavetas separas por repartimento, vulgo, prioridades. o que é mais necessário agora?

a minha urgência corre no impulso das minhas decisões. eu sou assim, esse passarinho, com asas, curiosidade no olhar, sou esse tronco de árvore fino, que balança com o vento, quase quebra, vou voar, sempre voo.

voo onde o meu coração acalma. onde eu me arrepio. onde eu me sinto viva. vou para longe, quero sentir o vento me engolir. quero que água do mar me envolva como parte dela.

tirei todas as minhas roupas, o sol abaixou, a noite está clareada pela linha fina do dia indo para se torna escuridão, estou entre o vão da grama alta de beira da estrada e a linha que separa a estrada dos carros e o canto do refúgio dos bichos selvagens.

e isso que eu me tornei. agora só respondo pelos meus instintos.

eu grito pela busca.

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quero comprar meu passado para fazer uma exposição nesses museus de arte contemporânea, lá eles vão me reconhecer, como uma Abramovic viciada em dores reais. como post it em excesso na tela do computador, acordei assim, cheia de compromisso diário.

já me chamaram para a meeting do ceo master price cheio de grana. eles realmente querem vender o meu projeto, é totalmente rentável, amor hoje vende. história de fracassados mais ainda.

já escrevi roteiro para filme. quero que Almodóvar seja o diretor, com trilha sonora da björk. a história da garota que virou urso polar. que veio das montanhas mais altas, desceu para o campo, queria um copo de chá.

comprou um moleskine, uma caneta sakura número 1, agora ela vai escrever de frente para a vida. vai lembrar de sua história de bonecas russas bêbadas de vodka, fazendo sexo com o bonequinho de heroi do primo.

desejo nasce quando criança, já dizia freud, oh lá. aquele livro sobre sonhos, fica incorporando minhas ideias. vamos para jung, ok. oh meus símbolos, entendam essa, acordei com uma sensação triangular de que tudo o que eu precisava era só mais um copo de café.

manhã, sol. intensidade das cores interferidas pelo ato espontâneo da escrita. vou deixar, vou deixar o piloto automático em uma paisagem mais tentadora. gosto de cachoeira, o barulho, ruído natural do recolhimento necessário, cobras escondidas debaixo da pedra, pássaros batendo asas, sombreando minha testa.

seus dedos são longos, nossas bocas fazem desenhos geométricos quando falam. eu não ouço nenhuma palavra, me escondo nessa distancia que há entre o que eu não consigo ouvir e o que não vejo, onde eu te toco.

aquela música cheia de pausas. rec. meu gravador fazendo balanço com o ruído de toda essa natureza. camisetas largas molhadas debaixo da água. frio, peles arrepiadas. ninguém controla nossos instintos humanos.

intuição do tamanho do meu nariz. botões sendo descobertos, abertos, preenchidos por outras texturas, cores, cheiros, versos, músicas cortadas, pernas trêmulas, dominação. rádio fm, 18 horas da tarde. preciso de mais café.

voltei para o escritório, onde o sol invade todo o ambiente retangular, bate de frente com minha cara. é só essa sensação que eu quero para hoje. por um longo tempo, eu permaneci em silêncio.

não preciso lembrar que já encontrei tantos idiotas. voltando na exposição, essa sim, venderia para o museu da escultura de londres, idiotas em diversos tamanhos e espessuras. a exposição já tem data marcada.

volto para você de novo. meus textos são mais seus do que meu. quem é você? cheiro de café. não precisava ter feito. obrigada. a simplicidade está no amor das coisas. outras pessoas falariam em outra ordem.

prefiro você e a nossa desordem.

Von-sophie-davidson

não, eu não tenho nada. nem um pedaço de papel para escrever sobre as experiências do desejo. ganhei uma câmera nova para fotografar seu sorriso da manhã. para enfeitar os portas retratos cheios daquelas imagens de alta colagem que eu passava a tarde inteira desenhando o meu mundo imaginário. silêncio procurado, com sorte, depois que fechamos a porta. não há mais nada que eu preciso lembrar.

detalhes são excessos hoje. quero apenas ouvir bom dia e ter uma frase toda vez que eu pensar em você. uma frase de imagens sem edição. em tempo real. uma queda ao ar livre sem vento para eu poder sentir apenas o frio na barriga. na verdade, quero sentir tudo.  e não há nada de novo em outros cheiros.

minha descoberta.

Pertenço a uma geração que ainda está por vir, cuja alma não conhece já, realmente, a sinceridade e os sentimentos sociais. Por isso não compreendo como é que uma criatura fica desqualificada, nem como é que ela o sente. É oca de sentido, para mim, toda essa (…) das conveniências sociais. Não sinto o que é honra, vergonha, dignidade. São para mim, como para os do meu alto nível nervoso, palavras de uma língua estrangeira, como um som anónimo apenas. 
Ao dizerem que me desqualificaram, eu não percebo senão que se fala de mim, mas o sentido da frase escapa-me. Assisto ao que me acontece, de longe, desprendidamente, sorrindo ligeiramente das coisas que acontecem na vida. Hoje, ainda ninguém sente isto; mas um dia virá quem o possa perceber. 
Procurei sempre ser espectador da vida, sem me misturar nela. Assim, a isto que se passa comigo, eu assisto como um estranho; salvo que tiro dos pobres acontecimentos que me cercam a volúpia suave de (…). 

Não tenho rancor nenhum a quem provocou isto. Eu não tenho rancores nem ódios. Esses sentimentos pertencem àqueles que têm uma opinião, ou uma profissão ou um objectivo na vida. Eu não tenho nada dessas coisas. Tenho na vida o interesse de um decifrador de charadas. 
Mas eu não tenho princípios. Hoje defendo uma coisa, amanhã outra. Mas não creio no que defendo hoje, nem amanhã terei fé no que defenderei. Brincar com as ideias e com os sentimentos pareceu-me sempre o destino supremamente belo. Tento realizá-lo quanto posso. 
Nunca me tinha sentido desqualificado. Como lhe agradecer ter-me ministrado esse prazer! Ele é uma volúpia suave, como que longínqua. 
Não nos entendem, bem sei… 
…Assim como criador de anarquias me pareceu sempre o papel digno de um intelectual (dado que a inteligência desintegra e a análise estiola). 

Fernando Pessoa, ‘Páginas Íntimas e de Auto-Interpretação’ 

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Quero beijos intensos. Olhares destruidores. Pele queimando. Amores brutos. Marcas. Quero sofás verdes de Bergman. Paredes vermelhas de Almodóvar. Luzes sobrepostas de Kieślowski. Densidade de Antonioni. Tempo de Tarkovski. Quero janelas de Sokurov. Sonhos de Méliès. Sentido de  Buñuel. Silêncio de Pasolini. Expressividade de Rosselini. Máscaras de Fellini. Cores de Wong Kar-Wai. Fragmentos de Bresson. Camas de Nan Goldin. Olhares de Abramović. Amores de Goethe. Versos de Pessoa. Baratas de Clarice. Obsessão de Thomas Mann. Ilusões de Álvares de Azevedo. Sensibilidade de Saramago. Descontrole de Florbela Espanca. Café. Chadô em Monaville. Flores de Caeiro. Cheiros de Baudelaire. Sexo de Dostoiévski. Liberdade de Morin. Diálogos de Nietzsche. Humanidade de Cioran. Certeza de Picasso.  Força de Kerouac. Sequência de Vertov. Arquitetura de Mario Peixoto. Adaptações de Nelson Peireira Santos. Dualidade de Dante. Mal do século do romantismo. Cheiro de incenso. Cerveja de bar. Fumaças de cigarro. Quero me arrepiar toda vez que você aparecer. Quero escrever. Andar. Nunca, afinal, tive tanta vontade de abrir um livro novo. De começar um filme. Quero humor de Woody Allen. Simplicidade de Drummond. Leveza de Mario de Andrade. Quero desenhar um livro de ilustração. Quero cores. Quero misturar nossos pantones. Minhas cores naturalmente escuras e as suas excessivamente radiantes. Quero costurar linhas. Fazer um novo bordado. Comprar uma roupa usada. Quebrar pratos. Quero ouvir ‘just before our love got lost you said’ em vinil, com a luz apagada, sozinha, com você.  Quero um orgasmo de Tristão e Isolda na composição de Wagner.  Quero continuar aquela música que termina sem fim. Quero abrir uma nova prateleira. Comprar um livro de poema. Quero ler novos escritores. Ouvir novos músicos. Quero um quadro na parede da minha casa. Uma paisagem de uma viagem que ainda vou realizar. Quero um filme novo para a minhas próximas fotos. Quero ver exposição da nossa história. Assistir aquele filme que deixei de lado. Quero dadaísmo em versos. Liberdade de vozes roucas contra o vento. Quero cabelo embaraçado. Mãos entrelaçadas. Marcas abstratas no corpo. Quero sentir um novo perfume. Conhecer o nome das flores. Escrever cartas. Viajar pelo mundo. Escalar montanhas. Pular de asa delta. Saltar de paraquedas. Fazer uma tatuagem. Escrever um livro. Não quero perder tempo no trono de um apartamento. Não quero estar feliz de ir aos domingos no zoológico dar pipoca aos macacos. Não quero minha matéria na capa do jornal diário. Não vou ler sobre a opinião pública política pseudo intelectual formadora de opinião. Nem vou me importar com aquilo que está sendo declarado nos grandes meios. Eu vou comprar um novo livro de fotografia. Vou começar aqueles livros de filosofia. Vou aumentar a minha dose de café. Vou lançar versos para o mundo. Sentir o inconfundível desprendimento da vida. Reparar em sotaques. Não me queixar do tempo, nem prestar atenção em conversas opinativas sobre qualquer coisa. Vou falar sobre os meus sonhos. Vou carregar todas as fotos das pessoas queridas. Enfileirar minha coleção de cd. Abrir todos os encartes. Recortar todas as letras. Embaralhar. E formar uma nova frase. Eu vou remixar todos os versos daquelas músicas que mais marcaram. Vou criar um novo vídeo. Vou vagar pelo cotidiano da minha cidade procurando uma resposta. Vou sentir as irregularidades da calçada. Reparar na arquitetura incoerente, do clássico ao moderno, vou rasgar uma página de livro, vou apagar fotos de ex relacionamentos, vou excluir todos os meus textos antigos. Vou jogar fora metade das coisas que estão naquela gaveta da lembrança. Vou buscar os meus verdadeiros amigos. Vou atrás do meu destino. Vou caminhar pelo mundo procurando frases. Vou sentindo em lugares. Vou deixando a minha intensidade me derrubando. Vou beber até perder a lucidez ou vou perder a lucidez de todas as outras maneiras. Vou comprar bússola. Você vai me emprestar uma lanterna. Já me decidi, comprei as passagens. Vou fechar tudo aqui em casa. Comprar uma nova mala. Estou de viagem e logo digo “não tente me procurar, só vou voltar quando eu me encontrar”.

Eram seis da manhã, outro dia de novo, eu teria que acordar e perceber que nada de tão importante poderia acontecer comigo. Isso não dependia só de mim, mas das pessoas que estavam ao meu redor. Isso de não esperar as coisas com grande expectativa, faz parte do meu lado realista se auto afirmando. No fundo, eu vou criando possibilidades inimagináveis, que tornam a minha vida muito mais interessante.

Em minha imaginação as pessoas se colidem. Se colorem. Se reforçam. Na realidade, elas estão afastadas por uma fina camada de ar. Com tons escuros, elas estão agrupadas em linhas, linhas sobrepostas, compostas por cores misturadas. Acordei, e resolvi vestir tons escuros. Talvez, isso faça parte da minha natureza, do meu inconsciente. Eu perco a paciência tão rápido. As vozes vão ficando de segundo plano, as pessoas vão ficando distantes, as situações vão deixando de existir.

Realismo literário. Casas, destroços da arquitetura urbana, vestígios das diferenças sociais, são situações da vida. Modelos de trajetos. São talvez, vírgulas, dois pontos, interrogação, aspas, parênteses. O que queremos dizer? O que sentimos? E quando somos francos?

Francos com nós mesmos. Às vezes me irrito com algumas palavras, quando elas são repetidas durante o dia. O que me aconteceu de diferente nesses últimos dias? Começou a existir uma ansiedade dentro de mim. Um impacto. Uma colisão.
Bateram o carro. As luzes estão piscando. Os passarinhos resolveram ficar escondidos em seus ninhos. Músicas, sons, cidade de São Paulo, revivendo o caos daquele momento, passos acelerados, estou perdendo à hora. A fina camada de ar, ficando mais densa, mais densa.

Não escondo o meu nervoso. Estou tremendo por dentro. Levei um choque de 240 volts. E minhas palavras estão confusas nesse momento, mas nossa, depois de tanto tempo, retorno aqui, achando que posso encontrar alguma coisa, que deixei vazar, dentro de mim, ando encontrando outra parte que desconheço.

Amanheceu, e todos conseguiram levantar de suas camas. O relógio despertou. Tenho que seguir o meu trajeto. O trajeto guiado por janelas mal tratadas, por ruídos, por mistura de pessoas. “tudo é singular”, Gal Costa.

Livros endireitados na prateleira, sem classificação alfabética, mas em ordem temática. O que estou buscando? Onde minha intuição está me levando? Ela já me trouxe tantas novidades, novas amizades, com elas, fotografias, gosto musical, pensamentos singulares, ideias de monte, lugares. A temperatura muda com frequência aqui. Prefiro o frio, gosto de sentir as partes do meu corpo quando o vento bate com força. Gosto de sentir o vento, é como se sentisse um pouco da vida. Um pouco da força natural agindo em contato com a minha pele. Da mesma forma que gosto de olhares que brilham sonhos. Gosto de cores intensas e roupas descombinadas. E de quebrar a força do meu sentido. da minha visão de mundo. Gosto de me perder por aqui, e isso está muito além de gostar, talvez seja uma necessidade de me colocar no jogo.

Madame Bovary cansou de ser analisada, de ter os seus textos interpretados, de acharem que ela está clareando ou escurecendo e que em suas palavras há um direcionamento dos seus pensamentos. Ano passado, Madame B., olhava seus álbuns com uma sensação de uma lembrança mais atual. Imediata. Uma sensação de vazio que na verdade nunca lhe escapou.

Tentou livros, filmes, frases inteiras, textos soltos, pessoas interessantes, histórias remendadas, sem acabamento, suas paredes, seus limites, seus passos sobre o mundo. Ela passou por todo o experimentalismo necessário. Navegou mares escuros. Quase se afogou. Guarda até hoje a sensação de vida que é se lançar sem medo.

Bovary cansou de promessas. Cansou de ser insuficiente. Ela precisa respirar novos ares. a sua inconstância assusta. Sua espontaneidade já levou em tantos lugares. Hoje ela consegue abrir os próprios olhos e estufar o peito com orgulho de quem não precisa de aprovação de ninguém, não precisa de direcionamentos, nem outros sonhos.

Ela sabe muito bem o que quer. Ela é intensa. Ela se perde. Hoje ela começa a sua viagem pelo mundo. Essa viagem que ela sempre sonhou. Hoje ela desenha em seu caderno seus planos futuros, rabisca com força, a palavra: encontrar.

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comecei assim, descrevendo minhas histórias de uma forma que eu pudesse deixar de ser eu. a máquina de escrever, negócio antigo, que temei por usar já não fazia mais sentido. mas queria sentir o que seria mudar esse ‘dispositivo’ que estou tão acostumada. com o teclado, eu vou fluindo, como se não olhasse, a escuridão que me rodeia, é só o meu quarto com as luzes apagadas. a música de fundo, me leva, para um lugar distante daqui. perco minha percepção de realidade. e sumo. 

quando a nossa maior fragilidade é aquilo que nos torna distantes. como se qualquer diálogo não fosse tão interessante assim. como se todos estivessem dopados de alegria por sentimentos eufóricos do momento. eu vou me perdendo nas sombras desenhadas nas paredes. nas sombras noturnas dos caminhos urbanos de São Paulo. as luzes fazem parte do cenário. meus olhos é tudo aquilo que me sobrou de mais sincero. meus pensamentos ultrapassam algumas barreiras que o meu corpo limita. esses dias eu ouvi em algum lugar que na precisão há uma pequena falha. algumas decisões são passageiras. quando tudo fica meio confuso, sinto que as coisas passageiras são aquelas que nos transmitem maior intensidade. como se eu provasse que a intensidade não é rotina. e que minha fotografia congelou o meu olhar. aquele olhar que eu não encontrava mais. eu nunca revelei. tenho medo de ser um caminho sem volta. mas meu medo é só a minha maneira de me tornar mais fria diante do mundo. não penso muito sobre outras possibilidades em relação a vida. mas acho oportuno que eu possa sentir a frequência de uma intensidade desconhecida. não construo detalhes. vou fragmentando. deixo solto a qualquer um. minha escrita é sinal de fraqueza. voltar aqui, quer dizer, que estou me expondo. quando eu volto a me expor. algo tocou na minha percepção que me tirou do piloto automático. vejo poemas em formas de gotas. vejo cores formando o céu. vejo desenhos contornando histórias que ainda não foram traçadas. vejo desfechos de cenas que ainda não dirigi. vejo um espectro de possibilidades que me ultrapassam. que me tornam um turbilhão. vejo detalhes que escapam de mim.

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