
Eram seis da manhã, outro dia de novo, eu teria que acordar e perceber que nada de tão importante poderia acontecer comigo. Isso não dependia só de mim, mas das pessoas que estavam ao meu redor. Isso de não esperar as coisas com grande expectativa, faz parte do meu lado realista se auto afirmando. No fundo, eu vou criando possibilidades inimagináveis, que tornam a minha vida muito mais interessante.
Em minha imaginação as pessoas se colidem. Se colorem. Se reforçam. Na realidade, elas estão afastadas por uma fina camada de ar. Com tons escuros, elas estão agrupadas em linhas, linhas sobrepostas, compostas por cores misturadas. Acordei, e resolvi vestir tons escuros. Talvez, isso faça parte da minha natureza, do meu inconsciente. Eu perco a paciência tão rápido. As vozes vão ficando de segundo plano, as pessoas vão ficando distantes, as situações vão deixando de existir.
Realismo literário. Casas, destroços da arquitetura urbana, vestígios das diferenças sociais, são situações da vida. Modelos de trajetos. São talvez, vírgulas, dois pontos, interrogação, aspas, parênteses. O que queremos dizer? O que sentimos? E quando somos francos?
Francos com nós mesmos. Às vezes me irrito com algumas palavras, quando elas são repetidas durante o dia. O que me aconteceu de diferente nesses últimos dias? Começou a existir uma ansiedade dentro de mim. Um impacto. Uma colisão.
Bateram o carro. As luzes estão piscando. Os passarinhos resolveram ficar escondidos em seus ninhos. Músicas, sons, cidade de São Paulo, revivendo o caos daquele momento, passos acelerados, estou perdendo à hora. A fina camada de ar, ficando mais densa, mais densa.
Não escondo o meu nervoso. Estou tremendo por dentro. Levei um choque de 240 volts. E minhas palavras estão confusas nesse momento, mas nossa, depois de tanto tempo, retorno aqui, achando que posso encontrar alguma coisa, que deixei vazar, dentro de mim, ando encontrando outra parte que desconheço.
Amanheceu, e todos conseguiram levantar de suas camas. O relógio despertou. Tenho que seguir o meu trajeto. O trajeto guiado por janelas mal tratadas, por ruídos, por mistura de pessoas. “tudo é singular”, Gal Costa.
Livros endireitados na prateleira, sem classificação alfabética, mas em ordem temática. O que estou buscando? Onde minha intuição está me levando? Ela já me trouxe tantas novidades, novas amizades, com elas, fotografias, gosto musical, pensamentos singulares, ideias de monte, lugares. A temperatura muda com frequência aqui. Prefiro o frio, gosto de sentir as partes do meu corpo quando o vento bate com força. Gosto de sentir o vento, é como se sentisse um pouco da vida. Um pouco da força natural agindo em contato com a minha pele. Da mesma forma que gosto de olhares que brilham sonhos. Gosto de cores intensas e roupas descombinadas. E de quebrar a força do meu sentido. da minha visão de mundo. Gosto de me perder por aqui, e isso está muito além de gostar, talvez seja uma necessidade de me colocar no jogo.
Madame Bovary cansou de ser analisada, de ter os seus textos interpretados, de acharem que ela está clareando ou escurecendo e que em suas palavras há um direcionamento dos seus pensamentos. Ano passado, Madame B., olhava seus álbuns com uma sensação de uma lembrança mais atual. Imediata. Uma sensação de vazio que na verdade nunca lhe escapou.
Tentou livros, filmes, frases inteiras, textos soltos, pessoas interessantes, histórias remendadas, sem acabamento, suas paredes, seus limites, seus passos sobre o mundo. Ela passou por todo o experimentalismo necessário. Navegou mares escuros. Quase se afogou. Guarda até hoje a sensação de vida que é se lançar sem medo.
Bovary cansou de promessas. Cansou de ser insuficiente. Ela precisa respirar novos ares. a sua inconstância assusta. Sua espontaneidade já levou em tantos lugares. Hoje ela consegue abrir os próprios olhos e estufar o peito com orgulho de quem não precisa de aprovação de ninguém, não precisa de direcionamentos, nem outros sonhos.
Ela sabe muito bem o que quer. Ela é intensa. Ela se perde. Hoje ela começa a sua viagem pelo mundo. Essa viagem que ela sempre sonhou. Hoje ela desenha em seu caderno seus planos futuros, rabisca com força, a palavra: encontrar.
comecei assim, descrevendo minhas histórias de uma forma que eu pudesse deixar de ser eu. a máquina de escrever, negócio antigo, que temei por usar já não fazia mais sentido. mas queria sentir o que seria mudar esse ‘dispositivo’ que estou tão acostumada. com o teclado, eu vou fluindo, como se não olhasse, a escuridão que me rodeia, é só o meu quarto com as luzes apagadas. a música de fundo, me leva, para um lugar distante daqui. perco minha percepção de realidade. e sumo.
quando a nossa maior fragilidade é aquilo que nos torna distantes. como se qualquer diálogo não fosse tão interessante assim. como se todos estivessem dopados de alegria por sentimentos eufóricos do momento. eu vou me perdendo nas sombras desenhadas nas paredes. nas sombras noturnas dos caminhos urbanos de São Paulo. as luzes fazem parte do cenário. meus olhos é tudo aquilo que me sobrou de mais sincero. meus pensamentos ultrapassam algumas barreiras que o meu corpo limita. esses dias eu ouvi em algum lugar que na precisão há uma pequena falha. algumas decisões são passageiras. quando tudo fica meio confuso, sinto que as coisas passageiras são aquelas que nos transmitem maior intensidade. como se eu provasse que a intensidade não é rotina. e que minha fotografia congelou o meu olhar. aquele olhar que eu não encontrava mais. eu nunca revelei. tenho medo de ser um caminho sem volta. mas meu medo é só a minha maneira de me tornar mais fria diante do mundo. não penso muito sobre outras possibilidades em relação a vida. mas acho oportuno que eu possa sentir a frequência de uma intensidade desconhecida. não construo detalhes. vou fragmentando. deixo solto a qualquer um. minha escrita é sinal de fraqueza. voltar aqui, quer dizer, que estou me expondo. quando eu volto a me expor. algo tocou na minha percepção que me tirou do piloto automático. vejo poemas em formas de gotas. vejo cores formando o céu. vejo desenhos contornando histórias que ainda não foram traçadas. vejo desfechos de cenas que ainda não dirigi. vejo um espectro de possibilidades que me ultrapassam. que me tornam um turbilhão. vejo detalhes que escapam de mim.
O que eu sinto? Às vezes acho que não tenho emoções o suficiente. E que fico construindo histórias apenas para me entreter, para escapar do mundo. Desse mundo de pessoas que vem e vão, de diferenças interessantes, de superficialidades, de necessidades vagas, de instintos, de passagem.
Como se eu estivesse dentro de um lugar escuro, construindo a minha própria história. Eles não me querem mais aqui dentro. Eles me expulsam para fora do mundo, aonde a minha lucidez vai se restaurada.
Onde nossas fraquezas vão se vistas com olhar distante, carros passando em uma velocidade alta, olhares observando pessoas caminhando pela rua, continuando suas vidas, como eu, que continuo a minha.
Acreditando na minha noção de tempo e espaço. Nas minhas questões sobre a vida, vou abrindo livros, lendo, interpretando com a minha subjetividade filtrada de mundo, vou jogando significados em minha mente. Vou racionalizando minhas ações, meus olhares, minhas falas.
Vou dançando quando começa a chover. A chuva, como uma sensação de descontrole, faz eu me permitir. Como alguém quem não se importa por nada mais, além do próprio egoísmo. Como é bom admitir isso às vezes? Isso sim são palavras sinceras e duras.
Mas a verdade, é que eu me importo com outras coisas, com outras ruas, outras pessoas, outros tempos climáticos, outros livros que devo ler. Eu fico buscando alguma frase em qualquer música que possa salvar o meu dia, alguma frase em algum livro, que possa me trazer algum significado diferente daquilo que eu já pensava.
Meu mundo anda em construção. Não carrego aquelas convicções ainda. Acho que elas são como aquele filósofo, diz, são prisões, e todos sabem que foi Nietzsche.
Eu não vejo outra saída essa noite. Desde quando levantei desse lugar, as pessoas me encararam como um estranho qualquer, como mais um, com os brilhos nos olhos, construindo detalhes para um mundo que não existe em nossa frente.
Não existem expressões da alma no mundo. Não existe alma. Não me lembro de qual foi a última vez que ouvi uma música chegar até aqui, nem me lembro mais os traços dos desenhos que eu costumava fazer.
Meus pensamentos, eles que continuam, vagando dentro de algo que ainda sobrou, será que posso chamar de minha individualidade inalterada? Perdi todos os meus parentes, todos se foram, junto com a lembrança de quem um dia eu cheguei a ser.
Minha profissão, meu conhecimento de mundo, não valem nada nesse lugar. É como se eu estivesse preso dentro de qualquer ideia mal acabada, de um sonho sem fim, de uma escuridão de pessoas sem vida, pessoas condicionadas a aceitarem aqui como o único lugar que elas deveriam estar.
Eu vejo, às vezes, mas pode ser uma ilusão, eu vejo a sombra das luzes, quando faz dia lá fora. Mas isso pode ser um conforto da minha mente, tentando recuperar, o que um dia o mundo foi para mim.
Eu consigo construir alguns momentos que eu poderia ter esquecido, mas por que eu aguardei? Acho que esses momentos só existem, porque ainda me restam algumas dúvidas. Será a dúvida a eternidade de nossas lembranças?
Acho que não. Mas por que diabos essas pessoas não saem daqui? Por que elas não buscam outro lugar como eu? Por que elas não percebem que há um mundo lá fora? Eu estou sozinho.
As paredes desse lugar estão todas com marcas de dedos, talvez elas tivessem tentado, talvez elas tivessem tentado como eu, mas não chegaram a lugar nenhum, e desistiram. Esses cadáveres humanos, talvez, sejam mais maduros do que eu.
Mas droga! Não consigo aceitar. Não consigo ficar mais tempo aqui, eu preciso de uma saída. Esse não sou eu. Para quem eu devo gritar quando não existe ninguém, ninguém, que vai conseguir me ouvir aqui?
Fé? Por favor, não me venha com essa agora. Por que meu lado racional não sustenta a fraqueza de que não existe nada além de mim e minha mente? Por que eu devo recorrer a uma fé? A fé me trouxe aqui. Nesse lugar escuro. Nesse túnel sem saída. Nesses humanos mortos.
Eu me mantive cego por muitos anos, mantive uma vida normal, trabalhei, casei, tive filhos, e agora todos eles estão mortos. Mortos pela minha fé, pela minha cegueira, como pude deixar a vida na mão de algo que eu tinha fé?
Como fui fraco o suficiente para não encarar que não existe nada além, da morte, isso não é pessimismo agora, eu sei.
Na minha frente existem duas janelas brancas. E abertas para que eu pense em algo, uma delas é essa página do computador, branca, com o cursor piscando, a outra é a janela do meu quarto que transfere os detalhes de um dia cinza, com chuva, nublado, sem estrelas no céu, ainda não escureceu.
Muitas vezes podemos estar enganados, acho que só percebemos isso, quando um novo pensamento nasce, como uma transformação, ou um ponto de vista adotado depois de muita cegueira. Já tive muitos momentos em que não consegui ver as coisas como elas realmente eram.
Acho que isso me levou a sentir mais dores. Já projetei muita coisa em muita gente, por que sempre faço isso? Não entendo como consigo jogar expectativas nas pessoas, isso não é justo, da mesma maneira que quebramos nossos ossos quando nos lançamos de prédios muito altos, estou pronta, sobrevivi.
Não gosto de pensar em retrocessos, mas a minha dor é atual. Sempre vou me colocar nesse lugar de quem questiona até mesmo a própria dor? Não me permito o sofrimento necessário para a evolução, será a evolução, um processo de endurecimento racional?
Me encontro nesses corredores de certezas duvidosas, ando nesse lugar mal iluminado em busca de uma civilização que possa me mostrar que o moralismo barato já não existe, que possam me mostrar que já existem coisas mais importantes do que apenas aquilo que pensamos.
Às vezes o calabouço é a melhor maneira de fugir da civilização. Já encontrei tantas pessoas por lá, encantadas com o fato de não terem que ser outras pessoas além delas mesmas. Quem irá julgá-las? São fracas porque preferiram a escuridão? Elas estão se escondendo daquele mundo que elas não acreditam mais.
Eu estou procurando a saída. Estava fugindo daquela cidade construída por muita moral europeia católica. Aquilo não era para mim, não me sentia dentro de nada, como se estivesse fora, não por escolha, mas eu não pertencia aquele mundo.
Vim parar aqui, mas não pertenço a esse lugar. Não vejo nessas pessoas a vontade de buscar algo a mais. Eu sinto essa necessidade desde quando abri os olhos. Depois que acordei daquele desmaio. Não me lembro de muita coisa, mas sei que me armaram essa.
Tenho que encontrar alguma saída, dentro desses túneis, e continuo pensando. Meu pensamento foi o único que não me abandonou. Talvez, eu deva dar algum crédito a ele, afinal, é o único que me mantém na sanidade.
Não quero ser quem nem aqueles porcos, comendo restos humanos, jogados no chão, não quero achar um mundo de significados quando encontrar a civilização. Não consigo acreditar neles. Até as minhas sensações estão paralisadas, meu instinto é o único que me mantém vivo. E a natureza, a natureza é dos mais fortes.
Estava tão escuro quando entrei aqui pela primeira vez. Esse é o meu problema, querer invadir portas. Algo me atraiu nessa sua escuridão.
Existe alguma coisa, que eu possa talvez reconhecer. Não é essa minha certeza. E não foi isso que me levou até você. Não sei porquê sempre venho nesse blog para tentar me expressar de uma forma que eu saia inteira depois.
Mas descobri, esse é o meu escapismo. Não é um lugar que encontro um conforto, mas que me atiro nesse mar de ilusões. Estou fragilizada. E como se eu me sentisse tão só. Como se já estivesse acostumada a lidar com isso. Acho que sou péssima para me despir. A dor e o medo justifica qualquer reação.
E eu acredito em olhares, mas eles já me enganaram tanto. Talvez, fosse olhares que eu mesmo queria acreditar. É tudo tão incerto em nossas vidas, desde quando colocamos o nosso pé no chão quando levantamos.
Nossos planos são fantasias nossas para escapar do que? Eu fujo sempre que posso, de um otimismo em relação às coisas. Isso não quer dizer que eu seja total pessimista.
Quem vai desviar suas rotas por um lampejo ou brilho no olhar? Quem sairá da estação na dúvida de não ser correspondido? Ninguém tomará esse risco, o risco de expor o interesse pelo outro, a fraqueza do desejo. As pessoas flertam o tempo todo e não arriscam pelo o que sente, arriscam o mais óbvio, o quase certo, então não arriscam. Todos querem ser flertados e flertarem no anonimato. O máximo que vamos receber serão olhares paralisados encarando um desejo comum, o interesse de dois seres selvagens domesticados.

